Não é o Kung Fury que eu pedi, mas é o Kung Fury que a internet merece

Kung fu, retrofuturismo, lasers, robôs, vikings peitudas, vikings musculosos gigantes, dinossauros, dinossauros falantes, dinossauros que atiram laser pelos olhos, nazistas, águia robô nazista, Hitler lutador de kung fu, viagem no tempo, neon… A lista de elementos massaveio (na falta de um termo melhor) de Kung Fury é infindável. Uma pena que ficou só nisso mesmo.

Ainda me lembro de quando o primeiro trailer de Kung Fury saiu. Eu fiquei muito empolgado. Era uma vibe meio revival dos anos 80, com elementos de VHS e da boa e velha tosqueira dos filmes de ação da época de um jeito que os anos 80 não eram mas que a internet queria que fosse. Foi próximo do lançamento de Far Cry 3: Blood Dragon, que, salvo pelo kung fu e nazistas, tem praticamente todos os elementos de Kung Fury em sua essência.

Quando vi a campanha do Kickstarter corri para fazer minha doação e ajudar no financiamento. Eu queria ver o filme que sairia daquele “trailer conceitual”. Fiquei chateado quando vi que o dinheiro arrecadado não seria o suficiente para um longa, mas a empolgação e o hype eram grandes. Passei meses na espera do filme, que sofreu dois atrasos. Com isso a empolgação diminuiu. Passei a enrolar pra ler os emails de novidades sobre a produção que eu ia recebendo de tempos em tempos. Até que o filme saiu.

E eu enrolei quase 2 semanas pra querer assisti-lo.

Eis que finalmente pude ver o resultado do pequeno “investimento cultural” que fiz (digo isso pois o crowdfunding nada mais é que você pagar por algo que você deseja ver pronto, não um investimento real com retorno financeiro e ganhos). E, sinceramente, mesmo sendo exatamente o que eu estava esperando, me senti decepcionado ao final.

Um resumo: Kung Fury é o melhor policial do mundo. Ele tem os poderes do melhor estilo de Kung Fu do mundo, o Kung Fury, que somente o escolhido para ser o Rei do Kung Fu pode dominar (tem kung fu demais nessa frase, eu sei). Ele ganhou tais poderes no dia em que um mestre Shaolin matou seu parceiro, e logo antes de enfrentá-lo, foi atingido por um raio ao mesmo tempo que mordido por uma cobra. Porém, nem todo mundo aprecia que Kung Fury seja o Kung Fury. Uma dessas pessoas é Adolf Hitler, o pior criminoso do mundo, que se autodenomina Kung Füher. Hitler viaja ao presente e tenta matar Kung Fury. Como retaliação, Kung Fury volta no tempo para matar Hitler e livrar o mundo de seu Exército da Morte. Entretanto, algo sai errado e ele volta de mais no tempo.

Peço perdão pela repetição incessante de termos, mas é pra dar uma ideia da repetitividade de algumas piadas no filme.

Poupando spoilers, dá pra meio que saber o filme todo pelo trailer.

Se antes a duração me preocupada, por achar que apenas meia hora seria muito pouco, agora me conforta. Provavelmente uma duração superior a isso tornaria a película bem mais chata (o que me deixa receoso quanto à noticia das negociações para uma continuação em longa metragem).

Como era de se esperar, o filme tem a profundidade de uma colher de chá. Tudo no roteiro é apenas uma desculpa para mostrar dinossauros, kung fu, lutas, explosões e vikings. Nada é contextualizado, nada tem uma exposição. Espera-se apenas que aceitemos que aquele mundo funciona daquele jeito e pronto.

As linhas de diálogo são, como se esperava, terríveis. Provavelmente o elemento que mais se aproxima dos filmes de ação oitentistas. Destaque para citações como:

“Knock, knock.”
“Who’s there?”
“Knock-les.”

ou a melhor frase dita por qualquer versão de Thor em qualquer mídia

“Stop… Hammer time!”

São momentos ótimos, porém totalmente gratuitos para tirar uma risadinha do espectador. E essa é a descrição de quase todo o resto do filme. Gratuito. (irônico, pois o filme teve distribuição gratuita na internet. Menos pra mim que fui becker…)

O maior problema, entretanto, são as referencias a um anos 80 que não existiu de verdade. Todos os elementos que são trabalhados e tratados como oitentistas, na verdade são fantasias contemporâneas sobre essa época (coisa que me incomodou Blood Dragon, nos videogames, e me deixou um gosto de pura bubiça na boca). Claro, isso pode funcionar pra muitas pessoas, mas não muito para mim.

Sinto que muito mais que uma homenagem a essa época do cinema, da mídia e da cultura pop em geral, Kung Fury é um filme sobre referências dos dias de hoje, de coisas da internet e de como queríamos que o passado tivesse sido. Não sei o que houve no meio do caminho que me fez perder o gosto por esse tipo de entretenimento, mas não consegui estar no mesmo que todo o resto do zeitgeist em torno da obra.

Devo ter envelhecido e me tornado muito amargo muito nesses quase 2 anos.

Uma pena, pois além de ter ficado empolgado quando vi o trailer, ainda dei dinheiro para o projeto.