O dia em que tentei convencer meu amigo a jogar Persona 5

Augusto Saúde
Jul 24, 2017 · 9 min read

Fazia mais ou menos uma semana que minha cópia de Persona 5 havia chegado. Então havia mais ou menos uma semana que eu estava jogando Persona 5. Infelizmente, num ritmo muito mais lento do que eu gostaria, já que a vida tem suas formas de impedir você de fazer coisas que você gosta prometendo que, graças a isso, um dia você fará as coisas que você gosta.

Era, então, uma quinta-feira a noite. Estávamos no intervalo das aulas da faculdade. Durante esse período era rotina nos intervalos das aulas de quinta-feira a noite eu parar para conversar com meu amigo Rafael, que quase sempre também estava no intervalo da aula dele. Somos de cursos diferentes, e coincidentemente neste dia específico da semana nossas aulas eram em salas próximas, no mesmo instituto. O instituto em que eu tenho a maior parte das minhas aulas é do outro lado da universidade, então aproveitamos essas chances pra conversar ao vivo, mesmo conversando frequentemente pelo chat enquanto jogamos Overwatch juntos. Ao vivo é mais especial, sabe?

Eu e Rafael somos amigos a muitos anos, e se existe um tema que nossa amizade é envolta, esse tema é videogames. Durante o tempo em que estudamos juntos no ensino médio, costumávamos ficar matando aula pra assistir as conferências da E3 ao vivo. Viramos várias noites jogando Overwatch, Dark Souls, e por aí vai. Acho que deu pra entender.

Pois bem, estávamos eu e Rafael, cada um comentando sobre o jogo novo que estava jogando. Ele estava falando sobre Horizon: Zero Dawn, e eu Persona 5. Outros jogos foram citados, Overwatch, Ni Oh, falei sobre a grande vontade que eu tinha de jogar The Legend of Zelda: Breath of the Wild. Mas os assuntos centrais foram Horizon e Persona.

Coincidentemente eu também estava jogando Horizon, mas estava bem menos empolgado com o jogo de ação da Guerilla do que Rafael. Persona estava dominando toda a minha animação naquele momento.

Depois de alguns minutos falando sobre animais-robôs, sociedades tribais e a Terra num futuro pós apocalíptico, virei pra ele e disse:

“Cara, meu Persona 5 finalmente chegou. Só quero dar atenção pra ele. Meu deus, que jogo bom!”, ou qualquer coisa do tipo. Eu estava realmente animado.

Se você não conhece a série Persona, antigamente chamada de Shin Megami Tensei: Persona, e antes disso chamada de Revelations: Persona, continue acompanhando, e seja apresentado assim como Rafael estava sendo. Mas te adianto que é um jogo japonês de RPG, bastante focado no desenvolvimento da narrativa, com demônios mitológicos sendo seus inimigos e aliados, jovens alunos de ensino médio lidando com uma infinitude de problemas cotidianos e alguma trama sobrenatural.

Protagonista de Persona 3 dando um tiro na própria cabeça para invocar seu Persona

Meu amigo Rafael me responde que se lembra um pouco de Persona 3, que originalmente saiu no PlayStation 2. Suas lembranças giravam em torno de de estudantes atirando contra a própria cabeça para invocar uns monstros que soltavam magia, mas que era muito novo quando viu coisas sobre o jogo e não tinha a memória tão fresca.

“É isso cara, esses monstros são manifestações da personalidade desses jovens. É uma metáfora junguiana sobre quem você é por dentro e quem você se mostra pros outros”.

Dou então uma limpada na garganta, e começo a explicar algumas coisas:

“Se liga, nos jogos dessa série você controla um estudante japonês que precisa resolver algum tipo de mistério sobrenatural, que envolve esses seres chamados de Persona. O terceiro é bem pesado, lida com uns assuntos tensos”.

Ele diz se lembrar de precisar ir nas aulas com o personagem.

“Sim, cara, você é um estudante realmente. Na escola geralmente você conhece seus amigos que vão lutar junto com você, e quanto mais gente você conhece, melhor seus monstros vão ficando. Cada amigo seu tem uma afinidade com um tipo de carta de tarô”.

Nesse momento ele me interrompe perguntando o que tarô tinha com essa história.

“São os social links. No Persona 5 mudaram o nome pra Confidants. É que cada pessoa é uma arcana do tarô, e cada persona tem ligação com uma arcana. Sei lá, Imperatriz, Roda da Fortuna, Sol, Lua, essas coisas. E ter amigos vai melhorando isso”.

Passado esse tema de cartas de tarô, começo a falar sobre os amigos.

Nossos jovens protagonistas párias sociais. E um gato…

“Nesse jogo os personagens principais são um bando de jovens desprezados pela sociedade. O protagonista é acusado de um crime,o que pro Japão é um tabu enorme. Nem os pais dele querem ele por perto, e mandando ele pra morar com um conhecido deles. Um dos amigos dele é o delinquente clássico de anime, mas ele é só um cara legal meio mal compreendido. São pessoas que sofrem algum tipo de preconceito ou ostracismo social, especialmente por adultos, e então buscam meios de demonstrar sua liberdade”.

Temas interessantes, não é mesmo? Não me lembro de outro jogo que tratasse sobre coisas assim. Mas, as coisas começaram a desandar foi mais ou menos aqui.

Um dos membros do grupo é um gato falante que perdeu a memória!”.

Este foi o momento que dividiu águas.

“Ele é um gato, que fala só com os protagonistas, e quando você entra no Metaverse, que é o mundo formado pela cognição das pessoas, ele manifesta forma antropomórfica, andando de pé e usando uma espada e um estilingue. Ele às vezes vira um ônibus também. Ele meio que mora na mochila do protagonista, que até leva ele pra escola, restaurantes, umas coisas assim”.

O gato Morgana

Eu devia ter parado esse assunto sobre o gato aqui. Mas, não…

“Os pelos da cara do gato imitam uma máscara tipo do Zorro. E o Zorro é o persona que ele invoca”.

Rafael perguntou se eles invocavam com armas apontadas pra própria cabeça, como em Persona 3.

Cada personagem tem um uniforme que reflete traços de sua personalidade

“Não, dessa vez eles tiram uma máscara. É que quando eles entram nesse mundo, eles trocam de roupas, e a roupa é meio que uma roupa de bandido super-herói. Eles são um tipo de grupo de ladrões. E se ele tirar a máscara, eles invocam o Persona deles”.

Foi então que Rafael me perguntou como que esse gato fazia pra tirar a máscara. Não me abalando, prossegui com as explicações.

“O que rola é que nesse mundo cognitivo deles, a mente é meio que o que rege tudo. Então eles usam réplicas de armas, tipo pistolas, escopetas, metralhadoras, mas os monstros acham que as armas são reais, então eles tomam dano”.

Achei que o melhor a se fazer era continuar explicando como funcionava o Metaverse, já que a ideia de se usar armas falsas como se fossem verdadeiras e isso ainda funcionar foi meio estranaha.

“No Metaverse eles encontram com umas pessoas que são tão ruins, que eles criam uma dungeon em um lugar e eles viram o chefão dessa dungeon. Não a pessoa em si, mas a parte ruim dessa pessoa. O primeiro, por exemplo, é um professor de educação física que se acha o rei da escola. Então na mente dele, a escola é um castelo. Nesse mundo, ele é o rei desse castelo. A parte maligna da mente dele usa uma coroa, controla uns soldados e só usa uma capa vermelha e uma cueca rosa”.

Imaginem a expressão de Rafael tentando visualizar essa descrição.

“Ele é tarado, cara, essa é a questão”.

Eu notei que tinha perdido um pouco do interesse de Rafael sobre o jogo, então fui tentar abordar outros aspectos.

“O jogo tem uma história bem séria. Esse professor aí, ele faz assédio moral com vários alunos, e o diretor não fala nada. Nenhum aluno fala também. Aí ele fica se achando o rei, mesmo. É por isso que os protagonistas tem que roubar o coração dele”.

Fui interrompido por uma risada bem alta, e uma pergunta sobre como assim roubar coração, se isso era um jogo de encontros.

“Não. Assim, você pode depois de um tempo sair com uma das meninas do grupo, aí tem um pouco sim de simulação de encontro, mas não, roubar o coração é outra coisa”.

Rafael não estava muito convencido.

“Ah, cara, mas o jogo oferece muita coisa pra fazer. Você pode, por exemplo, ir numa lanchonete que tem uma competição pra ver quem aguenta comer os maiores hambúrgueres que eles fazem. Isso aumenta a coragem do personagem. Outra coisa, tem que estudar na biblioteca ou em casa pra ir bem nas provas, e lembrar do que os professores explicam em aula. Se você achar um item sem identificação, tem que levar na lavanderia e colocar na máquina. Tem até uma academia pra malhar e aumentar o HP, sabe? E isso tudo numa recriação fiel de Tóquio”.

Ele ria das afirmações. Como assim um hambúrguer aumenta coragem? Como assim eu tenho que estudar pra prova do jogo? Lavanderia? Academia?

Eu queria ter falado mais do estilo visual do jogo. Devia ter explicado sobre as mecânicas de invasão dos Palácios Mentais. Sobre quão profundo eram os personagens. Mas acabei falando sobre alguns problemas de gráficos defasados pelo uso de uma engine não muito atual, e sobre as batalhas em turno, que acho que são as melhores batalhas em um RPG de turno que já pude colocar minhas mãos. Talvez eu tenha falado. Porém, não adiantou. Já era tarde demais.

Rafael já tinha perdido o interesse. E a culpa foi toda minha.

Ele disse que estava preferindo jogos mais dinâmicos, com controle de combate em tempo real. Não tinha muita vontade de jogar jogos assim.

Nesse momento, mais ou menos, o intervalo estava terminando.

Nos despedimos e marcamos de jogar Overwatch quando estivéssemos com tempo livre.

Voltei pra aula e, depois, pra Persona 5. Mas um pouco mais consciente de que alguns aspectos talvez fossem mais estranhos do que eu estava achando até então.

Ainda tenho esperanças que ele um dia jogue Persona 5, porém.

P.s.: Só pra provar meu ponto sobre como o estilo visual do jogo é marcante e muito bonito, toma aqui uma chuva de gifs:

    Augusto Saúde

    Written by

    Sou um nada. Desprovido de talento. Melhor seria se nem tivesse nascido.

    Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
    Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
    Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade