Robert Goldberg é o dono de uma pequena marca de sucos naturais vendida em seletos supermercados das áreas mais nobres da cidade. O empresário enxergou na crise que assola seu país uma oportunidade de expandir a visibilidade de seus produtos.

Com seus concorrentes tendo cada vez menos verba para investir em merchandising — devido à crise — , era a oportunidade perfeita para ocupar mais espaço nas gôndolas e aumentar o conhecimento de sua marca. Ele só precisava se planejar para deixar um possível aumento de produção engatilhado, caso a demanda realmente aumentasse em virtude do aumento de exposição.

Para isso ele dependia dos seus fornecedores.

Francis, um senhor com cara de poucos amigos, era dono de uma das maiores plantações de laranja do interior do estado. Era de lá que vinha a matéria prima para os sucos de Goldberg. Francis era seu principal fornecedor.

Robert tirou um final de semana para visitar Francis. O caminho pelas estradas de terra do campo era longo, mas havia tempo que Robert não visitava as terras de Francis. A cada buraco que passava com sua caminhonete ele lembrava com saudosismo de quando se conheceram. De quando Francis tinha menos de um décimo dos pés de laranja que tem hoje. E do quão difícil foi convencer aquele velho cabeça-dura a ajudá-lo nesse negócio. A viagem valeria a pena.

Cinco horas de estradas de terra depois, Robert chegou à plantação onde tantos verões passou. Francis era um velho amigo da família Goldberg, que possuía um sítio quase vizinho onde Francis passou boa parte das suas férias enquanto jovem. Parou sua caminhonete no lugar de sempre, ao lado do sobrado onde Francis vivia, hoje, solitário, não fosse pelos muitos animais que o cercavam por ali. Só cachorros eram pelo menos sete.

Francis certamente ouviu o barulho do motor a diesel da caminhonete e veio até a porta receber Robert. O velho andava com dificuldade, mas não poupou esforços para descer os três degraus e dar um forte abraço no hoje bem sucedido empresário. A manhã ia chegando ao fim e Francis propôs uma caminhada pelas plantações "como nos velhos tempos".

Robert notava que caminhar como nos velhos tempos não era algo que Francis poderia se gabar de fazer, mas achou que seria rude simplesmente negar. Os dois andaram por alguns minutos colocando a vida em dia enquanto passavam por infindáveis pés de laranja. Francis contou da morte de sua esposa — fato que Robert já conhecia pela sua família, mas nunca pelo próprio Francis. O velho dizia que, apesar de parecer solitário, sua vida não estava tão ruim assim. Seus cachorros lhe faziam companhia. Suas laranjas estavam mais saudáveis que nunca. O único problema era mesmo essa crise.

Robert aproveitou a deixa para contar seu plano.

"Você é louco", disparou Francis sem pestanejar.
"Por que diz isso?"
"Você não vê jornal? Não tá vendo essa crise? Isso é hora de investir?"
"Francis, é nossa melhor oportunidade. Todos os nossos concorrentes estão recuando." Robert sabia que o velho era cabeça-dura, mas não achara que seria tão difícil convencê-lo de uma coisa que parecia tão óbvia para ele.
"Você sabe que para fazer o que está me pedindo eu preciso comprar um caminhão novo, não é?"
"Sei"
"No meio dessa crise?"
"Francis, você já não tem o dinheiro?" Robert sabia que sim. Francis planejava comprar esse caminhão há anos.
"Tenho", disse o velho enquanto ajeitava o chapéu na cabeça.
"Você não quer aumentar sua distribuição?"
"Quero"
"Então o que te impede?"
"Não é hora pra isso, Robert! Olha essa crise!"

Devido à crise, Robert se despediu de Francis e voltou para a cidade em sua caminhonete. Francis não comprou o caminhão que precisava para cumprir parte do plano de Robert. Sem garantia de que poderia receber mais laranjas em sua fábrica, Robert temia pôr em prática sua estratégia de aumento de visibilidade. Mas era uma chance muito boa para deixar passar, pensava o empresário a cada buraco que passava na estrada de terra.

Chegou à cidade decidido a ir em frente mesmo assim. Entrou em acordo com seus principais revendedores e negociou mais espaço nas prateleiras. Não foi uma negociação difícil. Os supermercados preferiam ter as gôndolas e as ilhas de promoções especiais cheias de produtos, e não havia mais ninguém para barganhar esses espaços. Todos recuaram em meio a tamanha crise.

Em pouco tempo, alguns dos principais supermercados das áreas mais nobres da cidade estavam tomados pelos sucos de Goldberg. O aumento em visibilidade logo significou aumento nas vendas. O que significou aumento na produção. Porém sua fábrica já não dava conta sem que recebesse mais matéria prima. E Francis não podia lhe enviar mais laranjas. Não adquirira um segundo caminhão. Por conta da crise.

Com maior demanda pelos sucos de Goldberg, que pareciam sumir das prateleiras, logo os estoques dos supermercados foram se esvaziando. Como era impossível para a fábrica acompanhar o ritmo, a única saída era aumentar os preços. Dessa forma era possível controlar melhor a balança.


Bella era uma jovem estudante universitária. Mãe de um filho pequeno, morava sozinha em um pequeno apartamento em uma rua relativamente nobre da cidade. Passava quase que diariamente no supermercado para comprar alguma coisa. Escolhia aquele mais próximo pelo pequeno volume de compras, o que acabava fazendo pouca diferença em seu orçamento, mesmo sendo um pouco mais caro. Ainda assim não deixava de observar os preços atentamente.

Foi numa dessas idas ao supermercado, já à noitinha, voltando da aula, que Bella pegou uma das caixinhas de suco de Goldberg. Olhou para a etiqueta e comentou em voz alta com uma senhora que estava ao seu lado contemplando os legumes:

"É a terceira vez que esse suco aumenta de preço esse mês. E ainda insistem em dizer que esse país não está em crise."

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.