O novo técnico da Seleção Brasileira é o Sr. Renato Gaúcho

E não, Oswaldo não irá comandar por telefone

Você vai reclamar. Você vai xingar no Twitter. Você vai achar um absurdo e chegar, finalmente e novamente, à conclusão de que esse país é mesmo uma esculhambação. Mas depois de alguns jogos você vai ser obrigado a admitir: “Renato Gaúcho é o melhor técnico que essa Seleção já teve nos últimos 15 anos”.

"Técnico" Emerson Leão orienta a Seleção Brasileira durante treino na Copa das Confederações de 2001. Magno Alves observa com desconfiança.

Eu sei o que você está pensando. Todo brasileiro já foi alvo desse pensamento em algum momento dessa vida. Um belo dia você estava lá assistindo alguma mesa redonda na TV e pensou: “Tite é o nome ideal para comandar a Seleção Brasileira”.

Não, não é. E explicar o porquê vai nos ajudar a entender os motivos por trás dessa tese.

A Seleção não tem tempo para treinar. Os jogadores são convocados 20 dias antes da data FIFA, se apresentam 4 dias antes do jogo, quando dá tempo vão pra Granja fazer um treino ou outro. Entre um jogo e outro, normalmente tem uma longa viagem no meio. O “treino oficial”, realizado sempre na véspera da partida, é uma mera formalidade. Não existe treino tático, o técnico não tem tempo de corrigir o posicionamento de um jogador repetidamente até acertar, ou até o jogador se acostumar. Na Seleção, os jogadores chegam, se entrosam o mais rápido possível e jogam. Depois cada um volta pro seu clube.

Treino tático da Seleção Brasileira

Só aí já perdemos a principal qualidade do Tite, que é o trabalho contínuo, repetido à exaustão, o trabalho do dia-a-dia. É assim que Tite consegue arrancar o melhor de cada jogador. Ele é um treinador que pensa, analisa, muda, adapta. Mas tudo isso demanda tempo. Coisa que a Seleção não tem.

A Seleção precisa de um técnico que simplesmente não faça merda. Esse é o principal ponto. Ele precisa convocar os melhores, escalar os melhores e, de preferência, deixar que eles joguem nas posições onde melhor rendem em campo. Todos eles já vêm mais do que treinados dos maiores clubes da Europa, pelos maiores treinadores do mundo. É uma idiotice pensar que em 4 dias é possível melhorar o desempenho de um atleta dando uma de Professor Pardal.

"Como assim o Neymar não está funcionando como falso 9 no meu esquema 4–2–1–2–1?"

O técnico da seleção não precisa inovar com substituições ousadas. Normalmente aquela substituição burocrática já ajuda bastante. Tá ganhando? Tira o atacante e bota um volante. Tá perdendo? Tira um volante e bota um atacante de velocidade. Lógico que se ele souber ler o jogo e o adversário e substituir de acordo, melhor ainda. Mas só de não fazer merda, já larga na frente de pelo menos uns 5 que já treinaram a Canarinho.

Esse técnico também precisa ser “bom de grupo”. Com tão pouco tempo de concentração, treinamento e viagem, é difícil desenvolver relações mais profundas. Empatia é fundamental. O grupo precisa se fechar em torno do técnico, e não contra ele.

Luxemburgo e sua empatia que vem de berço

Além disso, é preciso resgatar o orgulho do brasileiro em torcer pela Seleção. Numa enquete recente, realizada no programa “Bem, Amigos”, que perguntava se o Brasil iria ganhar ou perder do Paraguai, mais de 70% dos torcedores responderam que perderia. Isso mostra claramente que não é uma questão puramente técnica. O torcedor não se sente representado por quem está lá, tanto que já tivemos Seleções até piores que a atual mas que ainda inspiravam confiança no torcedor. Um novo técnico deve ser responsável por capitanear a volta desse sentimento.

Aí eu pergunto: qual técnico no mundo reúne todas essas características e estaria pronto para assumir a Seleção amanhã?

Ele mesmo: Renato Gaúcho.

Boa parte dos brasileiros sonha com Pep Guardiola. Mas, sério mesmo? Precisa trazer o cara lá da Europa pra escalar Willian, Neymar e Douglas Costa na frente? Precisa rasgar um contrato com o Manchester City pra descobrir que David Luiz não dá mais e que é inadmissível Thiago Silva e Marcelo estarem fora da Seleção? Com todo respeito ao Sr. Pep, mas isso a gente faz por aqui mesmo.

Renato Gaúcho convocaria os melhores. Ele não tem medo nenhum de ser óbvio. Graças a isso ele também escalaria os melhores e deixaria cada um jogar como quer. Ele já fez isso no Fluminense de 2008: “Quem eu tenho de melhor no elenco? Hmm… Thiago Neves, Conca, Dodô… Então é isso mesmo, entrem lá e se entendam onde cada um vai jogar”. E deu certo, levou o time a uma decisão inédita de Libertadores.

Renato Gaúcho é o rei dos “rachões”. E, convenhamos, rachão é o máximo que dá pra Seleção fazer nesse tempo aí que eles ficam juntos. Eventualmente um treino de finalização, de falta, de pênalti, ou alguma outra coisa específica. Isso ele também faz. Dizem, inclusive, que a impulsão descomunal de Thiago Silva e Cícero vem da época em que Renato Gaúcho treinava cabeceios especificamente com esses dois, fazendo-os subir cada vez mais alto.

Renato Gaúcho posa com o elenco do Grêmio após rachão em treino.

Renato Gaúcho sabe conquistar o grupo. Quando Walter chegou ao Fluminense, nitidamente acima do peso, Renato praticamente o adotou, inclusive apelidando-o carinhosamente de “Waltinho”. No mesmo programa “Bem, amigos” citado anteriormente, o jogador exaltou em rede nacional o carinho que tem por Renato Gaúcho por tudo que o treinador fez por ele em sua chegada ao clube, mesmo que sua saída das Laranjeiras tenha sido conturbada. Aliás, o pejorativo apelido de “churrasqueiro” atribuído a Renato vem desse jeitão dele de ser amigo de todos os jogadores.

Jeitão esse que nos leva ao último ponto: Renato Gaúcho tem a capacidade de trazer a torcida pro seu lado. Muitos o chamam de marrento, mas é uma marra que só irrita os adversários. A torcida adora, repete suas frases memoráveis, usa pra zoar o amigo que torce pra outro time. Em outras palavras, Renato é cativante pelos motivos errados. Teoricamente essa marra levaria à rejeição, mas quando ela é aplicada em um contexto onde todos estão do mesmo lado, a galera toma pra si e vai junto. E, convenhamos, vai ser muito bom ver os Argentinos irritados novamente quando ele lançar uma frase como foi a “Prazer, Fluminense”, em resposta à irônica pergunta de Riquelme sobre que time era esse que ele estaria enfrentando na Libertadores. Frase proferida, obviamente, após eliminar o Boca Juniors da competição.

Em suma, Renato Gaúcho está longe de ser um técnico genial. Bem longe mesmo. Mas quem disse que precisamos disso na Seleção? Precisamos da genialidade do Neymar, não do cara que tá em pé na beira do gramado gritando pro lateral subir mais. De todas as características necessárias para comandar a Seleção Brasileira, Renato Gaúcho é o nome que elenca a maior parte delas — e as principais.

Essa pode não ser uma tese irrefutável, mas tenho certeza que é melhor que muita abobrinha que você já leu por aí sobre supostos nomes ideais para comandar a maior Seleção do mundo.

Colaboração de Sylvio Netto.