Trocar de posição

Entro no carro e, após meio trajeto completado, o motorista pergunta:

– Usa muito?

– Sim, bastante — respondo, econômico nas palavras.

Ele me conta, em tom de quem tem sóbrias expectativas, que é o primeiro dia de trabalho. A partir de então fico intrigado em saber sobre sua nova carreira, e iniciamos uma conversa.

Outro dia, ao pedir o carro pelo aplicativo, fiquei animado em ver que quem me conduziria era uma motorista — sim, mulher. Curioso para saber como era essa experiência para ela, descobri que, após ter que deixar um emprego aparentemente bom em uma das empresas da cadeia (sem trocadilhos) da construção civil, ela resolvera se aventurar a dirigir pela cidade. Confortável? Pareceu que sim. Ao volante, desatou a falar, contando os benefícios do Uber em relação à segurança que fornece a motoristas do gênero feminino.

Fato é que, em cinco anos morando na “Cidade Maravilhosa”, nunca havia tomado um táxi dirigido por uma mulher. Em pouco menos de um ano como usuário do Uber, já fui conduzido três vezes por elas. Guardadas as proporções dos contingentes de motoristas e taxistas, o Uber parece efetivamente reunir mais condições que garantam a segurança das mulheres.

Nos inúmeros movimentos que faço diariamente pela zona sul da cidade, comecei a perceber que os benefícios de um e de outro serviço são limitados. Portanto, não existe o “bom” e o “mau”. Na contramão dos muitos argumentos por que se usar o Uber, venho defender o uso dos táxis:

  1. Os taxistas são verdadeiros desbravadores da cidade. Eles não precisam se guiar por GPS sujeitos a erros, falhas de conexão e interpretação duvidosa de quem lê a cartografia tecnológica. Dificilmente, eles desconhecerão o destino ou a melhor rota. São como nossos ancestrais, colocam-se diante o mundo guiados pelas forças da natureza e do trânsito.
  2. Se o tempo estiver contra a gente, melhor tomar um táxi. Basta estender a mão na rua que eles vêm aos montes. No Uber, às vezes o tempo de espera chega a 10 minutos — algo incrivelmente inaceitável considerando-se a pressa imperativa dos nossos dias.
  3. De novo, se a necessidade do usuário é chegar rápido mais do que simplesmente chegar ao destino, escolhamos o táxi. Justamente em função da regulamentação, eles podem, se tripulados, usar as faixas exclusivas dos transportes coletivos. Passam, pelas filas de carros inertes, como o Papaléguas fazendo “Bip-bip”.

Essas são, pelo menos, três razões pelas quais desejei estar em um táxi enquanto estava confortavelmente sentado em um Uber, ouvindo minhas músicas preferidas, tomando água, mastigando uma bala e pensando, absorto em um invejável silêncio, sobre o que escrever aqui.

Foi no movimento dos corpos que pensei sobre o movimento das almas. Kotler, no livro Marketing 3.0, afirma que “os consumidores estão não apenas buscando produtos e serviços que satisfaçam suas necessidades, mas também buscando experiências e modelos de negócio que toquem seu lado espiritual. Proporcionar significado é a futura proposição de valor do marketing”.

Creio que a lógica do táxi ainda esteja assentada no Marketing 1.0, que é vender “o deslocamento”. Já o Uber mostrou-se “inovador” (muita cautela ao usar o termo…) justamente por colocar o consumidor no centro dos objetivos da empresa e, então, proporcionar um serviço melhor, mas ainda atuando dentro dos limites do Marketing 2.0. Ambos estão distantes, contudo, de tocar a alma dos transeuntes.

Como fazer isso? Ao consultar aqui o livro de culinária, não encontrei nenhuma receita que mostrasse o caminho. Então, por que fazer isso? Porque, ainda citando o tal Kotler, “atingir a diferenciação já é difícil para os profissionais de marketing. Atingir a diferenciação autêntica é ainda mais difícil”.

Por outro lado, ao olhar a história das inovações pelo retrovisor e adentrando o campo da economia, vemos que a Internet, cujo desenvolvimento se iniciou na década de 1960, constitui a quinta onda de Kondratieff, de acordo com Devezas. Em outras palavras, depois de a Internet, não tivemos mais nenhuma inovação (de novo, sob a perspectiva da economia).

Dessa forma, convivemos com a nostalgia da tradição e a promessa da inovação — sem saber qual das duas, ou se as duas, representa a “diferenciação autêntica”; reunimos o “gourmet” e o industrial, o artesanal e o tecnológico, e vivemos no meio das mudanças. Tantas mudanças que orbitam nossas vidas em diferentes trajetórias. Nada linear. A etimologia de movimento traz à tona a ideia de “trocar de posição”. E isso é o que mais fazemos, ao calçar diferentes sapatos o tempo todo.

O movimento que impele a acordar todos os dias é o mesmo que afasta da cama à noite: uma vontade elétrica e total de criar e produzir. Ou de implodir. Enfim, de gerar mais movimentos. É como a lei da física newtoniana, de que “um corpo em movimento tende a permanecer em movimento”. Do táxi ao Uber, são todos mobilidade urbana, sim, mas também ilustram movimentos de mercado livre e dinâmico (felizmente), de uma sociedade que inova e se reinventa, que se move em busca daquilo que satisfaça suas necessidades (carnais, biológicas, emocionais, ontológicas…). “O tempo não para”, já cantara Cazuza. E o espaço também não. Centenas de pessoas, de táxis, de Uber e de outros veículos projetam-se no espaço e no tempo bem debaixo da minha janela neste exato momento.

Texto escrito para a revista NOO Mag e publicado originalmente no site da NOO.