milhões de maneiras certas.

12 DE JUNHO DE 2015.

Algumas pessoas não são para nós, dizem, principalmente quando acabamos de terminar um namoro ou algo que poderia, quem sabe um dia, vir a ser um. Já houve um tempo em que eu acreditava nisso; em que, quando alguém me magoava, me deixava à deriva nas minhas expectativas, eu me consolava dizendo que aquilo não deveria estar no meu caminho e, logo, minha dor era inútil. Posso ter sobrevivido por muito tempo com isso em mente, mas depois de alguns anos é inevitável encarar, banhar-se no sofrimento muito bem guardado e cozinhado a fogo brando ao longo de todos aqueles dias que sua memória não se preocupou em gravar.

Minha dor não é nem nunca foi inútil.

Talvez me convencer disso seja minha maior dificuldade, logo então seguida da terrível tarefa de esperar até chegar em casa para desabar nas minhas lágrimas tão contidas, abusadas e esquecidas. A estação em que desço parece estar cada vez mais longe, mas já escuto, aqui, bem pertinho do meu ombro, minha mãe sussurrando as mesmas palavras das outras tantas vezes.

— Ele não era pra você, querida. — às vezes apenas o gênero mudava, mas era sempre a mesma coisa e, por uma noite ou duas, tudo em que eu podia pensar era “então quem será pra mim?”. Minha mãe, como boa devota, costuma dizer também que Deus está preparando, guardando alguém espetacular para o meu futuro e, ah, que talvez eu esteja desperdiçando meu tempo com as pessoas erradas. Também já acreditei nisso e sempre achava que a próxima pessoa, ah, a próxima será, sim, aquele presente que Deus estava reservando especialmente para a Helena aqui.

Minhas crenças estão mudando muito esta noite.

O metrô para na última estação antes de sair do Plano Piloto e o vagão enche mais do que eu esperaria para uma noite de sábado. Não há mais assentos vazios além dos preferenciais e um homem alto de mais ou menos quarenta anos permanece ali, em pé na minha frente, perto o bastante para ouvir os soluços que tento miseravelmente esconder. O desconforto é tanto que preciso, por alguns minutos, procurar desesperadamente alguma coisa a que me ater, alguma imagem que possa me fazer sorrir, esquecer de tudo que corre em minha mente, mas só o que encontro é uma garota do outro lado, encarando-me com olhos curiosos que, mesmo descobertos, ainda tentam sustentar algum contato, alguma mensagem invisível e intocável, perdida talvez, pois logo volto a encarar meus dedos nervosos, inquietos e já vermelhos de eu tanto estralar seus ossos.

Uma lágrima solitária desce e eu não tenho como pará-la, muito menos as outras que estão por vir. É fácil chegar à conclusão de que, na verdade, não quero segurá-las mais, independentemente das minhas velhas promessas de nunca chorar em público ou demonstrar toda a vulnerabilidade que carrego entre as costelas. Minha dor não é, não foi nem nunca será inútil, mesmo que eu não passe fome, não tenha câncer e esteja me rendendo apenas a um amor não correspondido.

A fita vermelha ainda está amarrada em meu dedo, pois não reuni a coragem necessária para tirá-la dali e quem sabe jogá-la fora. Nem sei se quero, aliás, pois ela mais do que qualquer coisa me lembra de todas as dores que evitei, todas as desordens que escondi debaixo do tapete e que agora insisto em revelar, em inalá-las todas e abraçá-las, deixar que toquem e façam morada em minha alma. Coragem tenho ao deixá-la aqui, creio, me fazendo companhia e chamando, invocando memórias assustadoras e até que doces depois que passam e deixam suas cicatrizes.

Mas eu ainda queria, ah, como queria esquecer quem havia colocado aquela fita ali.

— É um mito chinês. — respondeu ele, de repente, assim que concluí que minha pergunta ficaria mesmo sem resposta. — Diz que um fio vermelho invisível liga duas pessoas que estão destinadas a ficar juntas, seja lá qual for o tempo ou lugar, e que esse fio nunca se quebra, independentemente das circunstâncias. — Marcel não deixou de sorrir por nem mesmo um segundo enquanto as palavras deslizavam por sua voz, cedendo vez ou outra à rouquidão e aos leves tropeços de seu sotaque francês. Assim que soltou minha mão, certo de que o fio vermelho estava bem enlaçado em meu dedo anelar, pôs-se a amarrar o seu, atrapalhando-se mais do que queria até pedir minha ajuda. Gostaria que ele não tivesse feito isso, que não tivesse tido a oportunidade de ver meus tremores, meus dedos desengonçados errando os nós por ao menos duas vezes. Tive sorte, acho, pois tudo que fez assim que finalmente acertei foi aprofundar o sorriso e voltar a deitar-se no meu colo, resmungando mais uma vez que a grama estava pinicando demais.

— Vamos sair daqui então.

— E ir pra EPI? Nunca.

— Sabe que vai reprovar de novo, não é? — suspirei, determinada a me perder em qualquer outra coisa que não fosse o brilho do sol em seu sorriso cheio de dengo ou na maciez de seu cabelo louro. Acompanhar de longe os tantos alunos subindo da BCE para o ICC não era de longe tão agradável, mas ao menos me dava um toque de realidade, uma pequena noção de que havia algo maior que meus sonhos tão brilhantes, minhas obsessões tão extravagantes e incansáveis.

— Não vou continuar nesse curso, então não ligo. — deu de ombros e logo já estava cutucando meu queixo, quase como uma carícia, o que ele sempre fazia para me chamar a atenção. — Você já me prometeu que não vai me deixar, não é, Lena?

— Algumas centenas de vezes.

— Olhe pra mim.

Não tive como recusar. Seus olhos estavam ligeiramente úmidos e uma de suas mãos os protegia do sol intenso do fim da primavera. A outra, por sua vez, tomou a minha e a pousou novamente em seus cabelos, um claro pedido para eu voltar a fazer o cafuné que ele tanto gostava.

— Não me deixe. — não havia sido um mero pedido, disso eu sabia desde a primeira vez que aquelas palavras saíram por sua boca. Marcel estava sozinho em Brasília ou, melhor dizendo, no mundo. Filho de uma francesa e um brasileiro, ele se mudou para cá logo após a morte da mãe, mas o pai nunca necessariamente cuidou dele e, assim que pode, saiu de São Paulo e veio para a capital estudar Relações Internacionais na UnB, onde nos conhecemos, nos tornamos amigos e onde, por fim, me apaixonei por ele.

Chega a ser engraçado, até. Desde o primeiro dia, o que tanto havia de quebrado nele, o que tanto havia de falho e doloroso… não havia me escapado. Já se tornou um padrão meu, essa mania de se atrair por aqueles que claramente não se encaixam, que carregam dores incuráveis e mesmo assim expressam gentileza em todo e qualquer gesto. É o que eu procuro, até mesmo inconscientemente, enquanto vago pelos corredores entre uma aula e outra e o que acabo sempre encontrando, mesmo que apenas em minha mente, nas minhas breves fantasias regadas a análises feitas em um mero segundo, um mero olhar que não era destinado a mim.

Nele eu via tudo isso, fervendo, borbulhando, correndo por suas veias e constituindo suas células até que tudo que eu pudesse ver fosse alguém a ser guardado sob as minhas asas, amado e cuidado com tudo o que um dia lhe faltou.

Acontece que, afinal, ninguém precisa das minhas asas.

Se eu ouvi o anúncio direito, há apenas duas estações antes da minha e eu já começo a limpar as lágrimas, enxugá-las com a manga do casaco, muito consciente de que a maquiagem está mais do que arruinada. Mais uma vez olho em volta, um pouco mais confortável, um pouco menos desesperada e surpreendentemente vejo o homem que estava à minha frente sentado, conversando com ânimo na voz com uma velhinha e, um pouco mais a frente, uma mulher oferecendo uma bala ao jovem ao seu lado. Pergunto-me quantos fios vermelhos estão embaraçados aqui, quantos estão ligados um ao outro, quantos vão esticar e esticar e esticar na próxima estação enquanto suas pontas se distanciam cada vez mais até o próximo encontro, seja lá qual for o dia.

Eu vejo fios vermelhos em todo lugar e já não sei se eles estão realmente amarrados às pessoas certas ou se há apenas um nos ligando àquela destinada a nós, afinal Gabriel, Júlia, Lucas… eles não deram em muita coisa, mas estiveram comigo, me deram dores e alegrias e, bem, não consigo mais compreender acasos. O que poderia tê-los colocado em minha vida senão o destino, as fitas vermelhas embaraçadas por aí? Por que, oras, choramos tanto por aqueles que não estão amarrados a nós?

A verdade é que talvez, mas só talvez, hajam milhões de maneiras certas e esses fios vermelhos estejam nos amarrando a todos e a qualquer um; àqueles que amamos, namoramos e com quem vivemos a vida inteira, àqueles que duraram apenas uma noite, àqueles que nem mesmo nos tocaram, àqueles em que nos esbarramos na rua e nunca mais encontramos. Talvez, mas só talvez, o homem e a velhinha tenham uma fita entre eles e, a julgar pelo modo como ela acaricia a aliança no dedo enrugado, há uma fita entre ela e alguém que já foi.

Talvez, mas só talvez, ainda haja um fio amarrado a mim e a Marcel, embora o que ele tenha eleito o conecte à minha melhor amiga, com quem, certamente, ele está passando a noite agora.

É tarde demais para voltar a chorar, mas choro ainda assim.

Tudo que desejo agora é ar livre, a infinidade do céu e o vento secando minhas lágrimas. Escondo-as o máximo que posso, mas desta vez meus soluços estão um tanto altos demais e engasgo com minha própria saliva a cada dois minutos. Graças aos céus, Ana não sabe dos sentimentos que nutro por Marcel, pois, caso o contrário, talvez esta dor fosse demais para eu suportar assim, tão longe de casa, tão distante dos abraços de minha mãe.

O burburinho entre o homem e a velhinha cessa e tenho a certeza de que estão me encarando, mas as portas se abrem na minha estação e pulo do meu assento, corro para a plataforma antes que mais alguém note meu rosto inchado e avermelhado. Não sinta vergonha, não sinta vergonha, repito a mim mesma, erguendo a face e tirando alguns cachos rebeldes do caminho. Noto alguns olhares, mas continuo com o passo firme, deixando as lágrimas rolarem e certa, como nunca estive, de que minha dor nunca iria me invalidar.

Não vai, não vai, não vai.

— Ei, moça! — ouço chamarem, mas não me viro até sentir uma leve pressão em meu ombro. No momento em que notei que a voz era feminina, meu coração se aquietou e, com mais calma, vejo que é a mesma moça que tanto me encarou do outro lado do vagão. Seus cabelos eram vermelhos e tão revoltos que, mesmo passando nervosamente as mãos pelos fios, eles não cediam em volume, até que ela finalmente desistiu e me estendeu a fita vermelha, um tanto amassada e marcada por um nó antes feito. — Quer que eu amarre de volta?

Devo ter me distraído demais, pois só então notei que a minha não estava mais em meu dedo. Assim que a peguei, a moça sorriu mais ainda e seguiu seu caminho, correndo escada acima com uma mochila nas costas talvez um pouco menos pesada do que parecia ser a fita de veludo em minhas mãos, acariciando minhas palmas com todos os seus significados perdidos e fabricados. Não a amarrei de volta, apenas a segurei firme e continuei andando até colocar meus pés na escada rolante, já sentindo a brisa da superfície, o cheiro da noite quieta e um tanto úmida para essa época.

— Lena? — só uma pessoa me chama assim e apenas o primeiro e mais sutil timbre de sua voz já foi o bastante para o meu coração perder toda a calma. O que está em minhas mãos mais parece chumbo e eu não quero olhar, não quero olhar, não quero olhar, meus olhos estão vermelhos demais para olhar… — Ei! Lena! Lena! — Marcel continua e me admira que seus chamados estejam superando o alto ruído do metrô tomando partida. Acabo o encontrando por acidente, atraída pelos acenos espalhafatosos feitos na outra escada rolante e então o seu sorriso, tal tão inocente e entusiasmado que quero deletar todas as horas que passei furiosa com ele.

E elas foram muitas. As últimas 48, para falar a verdade.

— Eu estava em Águas Claras. — diz ele sem que eu pergunte. Na verdade, mal acenei de volta, mas Marcel nunca foi de esperar perguntas para revelar as trivialidades ou segredos que guardava.

— Eu sei. — respondi, já na superfície. Algo em minhas palavras apagou de súbito o sorriso em sua face e não fiquei por lá o bastante para saber se o que atingiu seu olhar foi confusão ou um estranho tipo de tristeza.

Eu queria chorar, mas o que a última lágrima tocou foi um sorriso que eu não sabia de onde havia vindo. Pela primeira vez, houve sinceridade no abraço que dei a mim mesma e até o vento parecia ser um carinho muito bem recebido. Saindo dali eu só conseguia sentir alívio, uma alegria incomum, embora, mais do que nunca, quem partisse naquele momento no trem lá embaixo me aterrorizasse. Os tremores e constrangimentos eu poderia muito bem deixar para a próxima segunda-feira, era o que eu tentava me dizer, pois, enquanto isso, as estrelas me assistiam tão cheia de amor. E isso não porque, como Júlia tanto dizia em suas teorias, encontrei uma alma que em outras vidas possa ter me matado, mas sim pois… talvez, talvez pela minha própria dor, eu possa ter encontrado um pedacinho mais valioso de redenção.

Pois eu poderia jurar, jurar por todos os santos e orixás que havia um fio vermelho entre minhas duas mãos, atando-as com a força de um destino inevitável.

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