Marte, O Intenso

Com uma chegada suave, a menina se quer nota que havia tocado o solo daquele oceano vermelho. Ela se aventura para fora da segurança de sua nave espacial, em um passo arriscado. O brilho refletido por aquela areia de Ferro Oxidado incomoda os pequenos olhos da criança, enquanto ela prende rapidamente seus cabelos em um singelo coque. O calor era intenso. Por sorte, havia trago consigo um lápis. A garota estende a mão sobre os olhos, em uma tentativa de alívio, enquanto move sua cabeça de um lado para o outro. Sombra, ela busca sombra.
Vagando por aquela imensidão escaldante, algo por entre as areias chama a sua atenção. Rastros contínuos desenhavam uma linha reta em direção a uma das inúmeras crateras ali presentes. Nem os meteoros resistiam à força avassaladora de um planeta flamejante.
O calor não havia diminuído, talvez tenha até aumentado, mas sua mente deixa de lado a procura por sombra. Aqueles rastros mecânicos eram mais interessantes para sua alma curiosa. Ainda com a mão aos olhos, ela caminha em direção à beirada daquela cratera, sem saber o que a espera. Seu coração se acelera, o suor quente em seu rosto se torna frio e a borboleta terrestre parece ter feito de sua barriga morada. Ela está ansiosa.
Três pares de rodinhas metálicas são a fonte daqueles rastros misteriosos e, sobre elas, um engenhoso aparato de câmeras e painéis solares. ‘Curiosity’, se lê sobre seu chassi. Parado, encarando a cratera, aquele Inseto Robótico parece estático, como quem admira aquele mundo quente. A menina se aproxima em passos fortes, na tentativa de alertar previamente a Sonda Espacial de sua presença.
“Olá” — Diz o robozinho. Não há tons mecânicos e falsos em sua voz, havia intensidade animação. Mais intensidade do que muitas pessoas poderiam carregar em suas gargantas. Mais animação do que uma tartaruguinha recém-saída de seu ovo, correndo em direção ao mar. “Não se sente, não vamos ficar aqui parados. Temos um mundo inteiro para visitar” — Ele continua.
Com um ritmo extremamente lento, Curiosity é facilmente deixado para trás, mesmo para os curtos passos de uma criança alienígena. Ela parece inquieta, mas pelo menos o calor não a incomodava mais e ambas as mãos agora repousavam em sua cintura, enquanto ela parava, 5 metros à frente de seu companheiro de caminhada, como quem espera impacientemente por suas rodinhas vagarosas.
“Pensei que estava com pressa” — A menina fala em tom desafiador e irônico.
“Nem um pouco” — Diz, a pequena sonda. Ânimo se faz presente naquela voz surpreendentemente humana.
Enquanto seus motores trabalham incansavelmente para movê-lo em direção à menina por aquela fina areia, Curiosity aponta suas pequenas câmeras para todos os lados, como uma criança em uma loja de brinquedos. Tudo parecia novo, inspirador, intrigante. A sonda faz uma pequena pausa, estende o que se assemelha a uma pazinha e recolhe um pouco daquele chão carmesim. A menina se abaixa e, ironicamente, se senta no aguardo de seu anfitrião. Uma letra recebe forma ao seu lado, desenhada cuidadosamente por seus dedos gentis.
“Heeey, dá uma olhada nisso aqui” — Exclama de forma entusiasmada o pequeno robô carismático. “Vê a beleza dessa areia?”.
A menina não vê mais do que simples terra ao seu redor. Mas tenta esconder seu desapontamento com um breve sorriso amarelo. Como o mais paciente dos professores, apaixonado por sua profissão, Curiosity gira uma de suas câmeras para a garota e começa sua aula:
“Você ficaria surpresa se eu dissesse que, mesmo sem qualquer narina ou sensor químico, eu posso sentir o cheiro dessa areia? Que posso escutar sua voz, mesmo sem possuir ouvidos ou microfones?” — Seu tom é desafiador, mas poético. “Pois bem, mas eu posso. Posso sentir seu abraço por volta de meus painéis, sua mão em minha pazinha, seu calor em minhas engrenagens. Posso sentir seu olhar, mais brilhante do que o Sol. Posso sentir seus lábios em meu chassi.”
Ares, Mars, Marte. Talvez, em outrora, confundiram o Fogo e o Desejo que emanava do solo daquele planeta intenso com o Calor de uma batalha. Deus da Guerra? De forma alguma. Não há ira, ganância ou morte naqueles campos alaranjados. Há, em seu lugar, corações acelerados, pulsos galopantes e pupilas dilatadas. Há urgência pelo reencontro. Há o calor de um beijo sem lugar ou hora. É a perfeita harmonia entre coração e mente. Sede que só pode ser saciada por lábios rubros como o solo daquele planeta. É o brilho de um colar dourado, o irradiar de um par de olhos únicos, o gentil toque em minha nuca, o suspiro forte em meus pensamentos e o calor em meu peito.
“Meu nome é Paixão.” — Completa, a pequena sonda, enquanto devolve a preciosa areia ao solo e segue, entusiasmadamente, sua jornada por aquele mundo de maravilhas.
