Terra, O Cupido

A caminho do Terceiro Planeta, dúvidas surgem na mente de uma criança de olhos desapontados. Vista do espaço, não passa de uma Gota d’água que flutua sem destino. Como o mais inofensivo pingo de chuva que cai sobre o oceano, não se esperando mais do que pequenas ondinhas de sua presença. Nada de Dinossauros Gigantes, Pirâmides ou Arranha-céus. Olhando a distância, ela esperava mais do Planeta Mãe. O que a menina não percebe é que, talvez, essa fosse a maior beleza daquele planeta afinal: Não ser prisioneiro das vontades e expectativas humanas.
Seu pezinho, apesar do peso leve de seu corpo, afunda facilmente na lama de onde pousou. Fria, úmida e estranhamente grudenta, escorre por entre os dedos de seu pé descalço, marcando para sempre aquele solo com suas pegadas tamanho 30. Para cada passo desequilibrado que ousava dar, uma nova pegada se abria. De algumas, água minava. De outras, uma pequena plantinha colocava suas folhas tímidas para fora. Não havia movimento que não houvesse consequência. Era como uma fileira infinita de dominós perfeitamente alinhados, e a menina havia derrubado a primeira peça
Tentar manter o controle de todos os passos era impossível naquele mundo, e a garotinha não demora muito para se desequilibrar e levar as mãos ao chão viscoso, na tentativa de evitar uma queda total. Tentando se colocar de pé mais uma vez, ela remove lentamente as mãos do chão, que agora se encontra ainda mais esburacado. Antes de se levantar, ela nota como uma pequena borboleta azul-celeste surge daquele mar de lama. A menina pensou ser a coisa mais frágil e inofensiva que já havia visto. Terra, mais uma vez, tinha uma carta na manga.
“Estava te esperando, criança” — Diz a borboleta, com tom paciente.
“Você sabia que eu viria? Você se quer sabia que eu cairia onde cai e te libertaria desse buraco?” — A menina parece estar ainda mais intrigada com aquele planeta.
Com um suave bater de asas, tão suave que não levantaria nem uma pluma do chão, a borboleta cria um sopro tempestuoso, jogando a menina de costas na lama. Dessa vez, do buraco considerável que suas costas deixaram, um lago emerge.
“Levante-se, ora” — A borboleta diz em tom apressado. “Vai perder o espetáculo.”
A menina se levanta e se coloca a observar o seu recém laguinho. Observar como pequenos peixes surgiam rapidamente, como plantas começavam a crescer ao seu redor. Era como se o lago sempre estivera ali, mesmo tendo acabado de ser ‘criado’. Tudo nele era como deveria ser. Equilíbrio desde seu princípio. O lago era a mais perfeita obra daquele planeta misterioso.
“Eu disse que perderia o espetáculo, caso não se levantasse” — A borboleta não parecia surpresa.
Por alguns segundos, a menina permanece confusa. Tudo parecia simples e tudo podia acontecer de forma tão complexa. A Lama que grudava seus cabelos era a mesma da qual árvores cresciam rapidamente de algumas de suas pegadas. Lama é Lama. Mas nenhuma pegada é igual.
“Não há nada que eu possa te contar, menina” — Diz a borboleta azul em tom ainda mais paciente, talvez até um pouco misterioso. “Tudo pode acontecer de forma diferente, e mesmo assim, nada mudar. Não há tempo que não seja meu, mas eu não tenho tempo algum. Não tenho lugar, não tenho hora. Tenho planos, mas não os executo. Isso cabe a você. Sou fundamental. A Filha de um Fazendeiro Espacial.”
Não se trata de aceitação ou perfeição, não se trata de certo ou errado, não há explicação e ainda sim é tão compreensível. A menina entende, então, o segredo daquele planeta. Ele é o mais óbvio dos mistérios, o aliado dos corajosos e a esperança dos perdidos. O furacão de um bater de asas de uma borboleta. A Lei de Murphy. O pão que sempre cairá com a manteiga para baixo e O Beijo que nunca será esquecido. O reencontro improvável. A fumaça de um cigarro ao fundo de uma reunião de autoajuda e a queda dos prédios que ela causa. O amigo dos amigos do cosmos. O Cupido de Planetas.
A Borboleta bate suas asas lentamente e se mantém estática, bem à frente dos olhos da criança, ainda ajoelhada as margens de seu pequeno lago.
“Meu nome é Acaso.” — Diz a delicada porta-voz daquele planeta complexo.
