O que eu aprendi com uma calça jeans pantalona da Opção

Essa noite tive um sonho que me custou muitas dores. Coisas que eu não lembrava mais, talvez até irrelevantes. Eu acreditava que aquelas memórias eram apenas memórias, daquelas que são fadadas ao esquecimento.
14 anos, Ilha do Governador, Rio de Janeiro, 2005. Das vantagens de se nascer em 1990, consigo lembrar quantos anos eu tinha quando sai do meu Estado.
Julho de 2005, Paraju, Espírito Santo. Nunca algo tão simples se tornou tão traumático e sim, superável. Mas eu não sabia que aquelas marcas tão cicatrizadas fossem capazes de machucar de novo.
4h00 da manhã, chorando muito eu acordei. Chorei no sonho, acordei por angústia e chorei mais um pouco, porque não entendia bem pelo o que estava chorando.
No sonho, eu não era muito diferente da aparência que tenho hoje. Porém, lembro que saía de um divórcio,e Deus me livre ter que divorciar algum dia na vida. Sei que sim, essas coisas “acontecem”. Mas pelas experiências que tive que passar, escolho não vivenciá-las.
Eu andava no antigo condomínio que morei, na pré-adolescência/ adolescência. Eu lembro que aquele sentimento doía muito. Andar por cada canto daquele lugar, numa ladeira da Praia da Bandeira. Eu revivia cada emoção de quando era criança. Polícia e ladrão e queimado sem dono, juro que a gente achava que tinha inventado essa brincadeira.
Dançar Rouge na caixa d’água do Bloco 1 e ver os meninos rindo da nossa cara. Criamos uma girl band, que cafona lembrar disso. O por do sol era tão lindo de lá, não parecia que à frente existia uma praia totalmente poluída. Salve Baía de Guanabara.

Passei pelo Bloco 14 e de lá via a janela do meu quarto, de onde o Márcio me gritou várias vezes e uma delas me rendeu uma bela surra de cinto, porque meu pai acreditava que eu estava “namorando”. Ele nem sabia, mas eu ainda era B.V. A última surra que ele me deu.
Daquele dia em diante, eu acho, ele escolheu ser um pai ausente.
Amava a minha janela, me debruçava pra gritar a Amanda e falarmos sobre a programação da Rádio Cidade: “tá tocando Maroon 5 amiga, coloca aí”. Nosso amor incomum até hoje. 12 anos.
Memórias ótimas e gostosas, mas por que doeu tanto?
Durante o sonho eu lembrava que naquela época tudo era tão mais fácil. Privilégio de vida que tive até aqui. Despreocupada, sem saber o que de fato é a vida. E acredito que muitos tenham vivenciado essa mesma sensação que eu, pelo menos, até os 14 anos. Mas de fato, andar pelo Aerobitas me fez lembrar que já foi muito bom viver.
Era pleno, inocente e tão satisfatório.
Minha maior chateação era não ter uma calça jeans pantalona da Opção. Hoje, me sobram chateações e me faltam opções pra ser otimista e perseverante. Não tenho muito, mas o suficiente, resiliência.
