Relógio
Aquela luz escritorial em um dos lados da sala. Uma mesa de reuniões comprida, com 6 cadeiras de cada lado e uma em cada ponta. Em uma delas ele se encontrava, sentado numa postura que lhe causaria dores nas costas na velhice.
No lado oposto o problema. O relógio. Daqueles baratos, com moldura de plástico que imita metal e fundo de estrelas no preto, contrastando com os números e ponteiros brancos. E fazia um som bizarramente parecido com as onomatopeias de bombas-relógio de desenho animado. Tic, Tic, Tic.
A cada som, um segundo a menos de vida. Um segundo a mais de desespero. Vozes em algum lugar no corredor. Barulho de teclados. Música vindo de algum lugar. Crianças brincando talvez? Sons e mais sons. Carros, ônibus, cadeiras rangindo e portas batendo. Mas o som mais sufocante era o do relógio. Aquele “tic” não o deixava pensar. Aquele “tic” que, quase que sincronizado com as batidas do coração, o levava a beira da loucura.
A cada respiração, a cada piscada, o relógio respondia. Tic, Tic.
Seus olhos foram se tornando mais cansados. Vidrados. Já não via a tela do computador na sua frente. Ofegava. Tremia.
Respirava cada vez mais rápido. A cabeça girando. Tic, Tic, Tic, Tic.
Era chegada a hora.
Click no lugar de Tic.
E o primeiro tiro foi para o relógio. Os próximos só Deus poderia dizer.
