Eles querem lhe pintar, lhe escrever, lhe desenhar como se assim fosse possível eternizar aquilo que não está ao alcance da mão. É clichê, mas pouco importa o toque do corpo se este não leva ao toque da alma. Longe da cafonice, não propõe a vida como antigamente. Pra quem de fato vive, é loucura impor o que se aplicaria num contexto meio século atrás. Mas ao que leva o viver pela metade? O sentir nada e o negar tudo? Qual a honra em se abster e abobalhar frente as incontáveis galáxias que se colapsam no coração?
Força e quebra, luz e caos. Muito mais caos que luz. A cada ano, o que estava enterrado sob o mar emerge, e o que se tinha por certo se desfaz pelos dedos. Sob o oceano cinza, o calar sufoca e o gritar afoga, mas nadar é preciso. Aos pulmões toda a pressão que há, às pernas os grilhões da culpa intrínseca ao ser, e às costas, todo o peso do mundo.
Por entre os mortos caminhou, e pôde sentir quão densa é a existência, ali em meio a dureza inexorável dos séculos, o imaculado se torna pó, o perfeito se quebra frente ao espelho.
Os olhos cansados e a fala entediada denunciam já não poder mais guiar outro pela mão, o caminho é para um a pé, ainda que contra todas as possibilidades se faça desejosa a alma que lhe puxem por sobre a imensidão do mar. Quando se recorda da sensação do peito preenchido pelo ar, que ainda que com alguma impureza, mantinha certo frescor, todo o mundo parece rodar sem sair do lugar, algo como assistir ao pesadelo de outra pessoa.
