Eu e esse meu preconceito de merda.

Eu sei, logo de cara tu vê um negro da periferia falando sobre seus preconceitos, assusta né ? Talvez a minha condição de vulnerabilidade tenha me posto apenas no modo observar e não de me analisar.
Entender a situação talvez me fassa perceber melhor as coisas. [Escrever faça com dois S com toda certeza já te fez formar um conceito sobre mim né ? rsrs]
Buscando mais sobre o que significava a palavra [_preconceito] fiquei bastante intrigado pois se refere há “qualquer opinião ou sentimento concebido sem exame crítico” percebi que raramente examinamos algo de maneira critica e o pior, as vezes levamos muitas pessoas a pensarem iguais ou até mesmo reforçamos um pensamento/atitude de maneira errada.
O mais louco do meu preconceito, é que ele vem de fora e contamina tudo por dentro.
Quer ver só ?
Uma vez passeando pelo shopping em Niterói, tive a audácia de ir no lado A do Shopping, aquele lado que de uma maneira bem subliminar diz que uma pessoa de periferia não deveria andar por ali, não esta escrito em lugar nenhum, mas tenho sempre essa sensação pois é onde ficam todas as lojas mais caras do universo, tem até uma praça de alimentação a parte … Resolvi ir lá e parei em frente a uma loja de jóias, te juro que imaginei minha mãe com um daquelas colares, mas minha imaginação foi interrompida por zunidos de rádios, quando olhei pra traz tinha dois segurança cochichando sobre mim, é, eu ouvi …, fiquei naquela loja por quase 20 minutos e eles permaneceram lá, atrás de mim, para onde eu ia eles me seguiam, fiquei extremamente transtornado e voltei para o lado B do shopping.
Lembro de ter visto que os seguranças eram negros como eu, seus sapatos não eram de Mister Cat, seus ternos não eram Dolce Gabbana e seus salários também não eram astronômicos. Então porque me trataram daquele jeito zoado?
Lembro que minha mente deu um bug geral, porque na minha cabeça os preconceituosos tinham cor, classe social e bairro. Não fazia sentido eles terem me tratado daquele jeito, naquele momento percebi que eu também era preconceituoso e que a minha condição de vulnerabilidade sempre me instruía a ver o outro, mas nunca a mim mesmo, ou seja, sempre me via em condição de embate com os que eram diferentes de mim e de certa forma a sociedade curte alimentar essa treta.
Sempre que vou em eventos, gostaria de ver mais negrxs, faveladxs, trans, indios, quilombolas e tantos outros que fazem do Brasil um pais diverso, Mas gostaria de ver não pela cota da obrigação, mas sim pelo seu talento, habilidade ou simplesmente pelo direto, pois a partir dai começamos a falar de cidades mais humanas e uma nova economia de inclusão.
Do outro lado sempre escuto muitos amigos de classe alta, donos de BMW , que comem melão com nutela de manhã, falando que não tem culpa pela cor, classe social e bairro onde mora, e que gostaria muito de se inserir e trocar de alguma forma, mas sentem dificuldades extremas de chegar na nossa “Quebrada” . Minha primeira reação é olhar e falar “ Mano, ta de sacanagem? você não esta tentando direito ” mas, em poucos segundos lembro do meu preconceito de merda, rotulando os outros sem atravessar fronteiras, sempre gerando uma opinião ou sentimento sem exame crítico, só reproduzindo o que já me foi imposto, se for branco, rico e da zona sul não presta…
É super comum hoje ver amigos cheio de dedos para falar comigo, não sabe se deve me chamar de preto, negro ou cidadão de cor, se deve falar favela, comunidade ou conjunto habitacional de baixa renda e por ai vai, no fim pelo menos “comigo”, pouco importa a nomeclatura, o mais importante é o respeito e contexto. Explico sempre que no meu meio (favela) nunca usaram a minha cor como forma de ofensa ou o lugar onde moro como uma maneira de me diminuir, mas quando tô no asfalto, ai pega meus amigos, tem cada olhar que parecem um tiro.
Sempre quando vou palestrar em lugares grandes, eu me misturo(ou tento)no meio de todo mundo, fico sem crachá e vejo como as pessoas me tratam antes de saberem que sou palestrante (não que isso seja alguma coisa, mas acredite, as pessoas mudam), sempre leio os olhares e muitos deles me diminuem, menosprezam e só falta me perguntar o porque estou ali. Lembro de um evento muito especifico que fui no Arpoador RJ, mano esse foi o único que dei bolo em toda a minha vida, lembro que cheguei cedo, me identifiquei como palestrante apenas na portaria, fui para o coffe e fiquei lá comendo, ninguém falava comigo e tal, até ai beleza, mas quando se aproximou das 19:30 fui convidado a me retirar pelo segurança a mando da organizadora do evento, alegando que eu não tinha sido convidado para tal, esse esclarecimento só foi dado lá fora, agora, imagina a cena, um segurança se aproxima e fala que precisava conversar comigo lá fora, quando cheguei lá ele me disse, “A senhora tal, pediu para que você se retirasse pois era uma evento particular e você não tinha sido convidado” na hora eu pensei, vou explicar tudo e entrar, mas olhei para o lado e vi que só eu tinha tido aquele tratamento vip, logo peguei minha mochila velha e fui para o ponto do ônibus, passou uns 30 minutos e recebi a ligação dela, perguntando se eu ja estava chegando, informei que o menino que ela pediu para retirar do evento era Eu, tivemos aquele nosso momento de 40 segundos de silêncio e depois a ligação caiu, como diria Tim Maia “ Ela partiu e nunca mais voltou”.
A tendência desse meu preconceito de merda e rotular todos os brancos, ricos da zona sul de preconceituosos, racista do inferno e tal, mas se eu fizer isso coloco muita gente bacana que ta fazendo o bem no mesmo balaio e não é justo.
Percebo também que criamos perfis e seguimos a risca, quer ver só? Quando vou na casa de algum amigo rico que mora bem, o porteiro sempre tira uma comigo, pergunta se é entrega, me conduzem ao elevador de serviço e etc, a mesma coisa acontece quando algum amigo branco vem me visitar na comunidade, a primeira pergunta é “O que esse playboy está fazendo aqui ?”
Vejo que o meu preconceito não tem muito haver com classe e cor e sim a maneira que eu rotulo as pessoas.
O pior é que no meio de tanta polaridade e diferenças, vejo gente lucrando com esse muro, se promovendo e até mesmo criando personas sobre o que é ser favelado e o que o preto não tolera, misturando preconceito com racismo e se vendendo o salvador da favela, rei do movimento negro e etc.
Eu e o meu preconceito de merda estamos ferrado tudo, rotulando um por todos e o pior, transformando esse problema em grana, fortalecendo as diferenças. Se me perguntar se vivemos em um pais racista, preconceituoso e machista, vou afirmar que sim! Mas se começarmos a tirar os rótulos do preconceito talvez conseguiremos melhorar e muito nossa sociedade.
