Esclarecimento Saladorama

Em relação à reportagem publicada pela Agência Pública no dia 22 de novembro de 2018 sob o título “Mérito Fake”, assinada pela jornalista Joana Suarez, viemos a público prestar esclarecimentos.

Eu, Hamilton Henrique, fui acionado pela jornalista no dia 08 de novembro de uma maneira bastante inusual. Em uma ligação telefônica, ela se apresentou apenas com o primeiro nome, disse estar fazendo uma reportagem investigativa usando informações disponíveis no Facebook e fez perguntas que me soaram estranhas. Por isso, após uma longa conversa, ela sugeriu me enviar os questionamentos por e-mail, para que assim eu pudesse checar se estava falando mesmo com uma jornalista, saber seu nome, sua procedência. Na ocasião, ofereci a ela vir pessoalmente ao meu escritório em Recife e me dispus a mostrar todos os documentos e qualquer coisa que ela julgasse relevante.

Ao longo dos últimos 3 anos, dei entrevistas para mais de 20 jornalistas, dos grandes periódicos brasileiros a pequenos jornais de bairros. Tive a oportunidade de colaborar com o trabalho dos maiores jornalistas desse país e sempre me dediquei a recebê-los com carinho. Falar apenas o primeiro nome e não enviar e-mail com domínio oficial de uma empresa jornalística para agendar a entrevista não eram coisas que me pareciam comuns.

Este e-mail nunca chegou e a jornalista não quis vir ao nosso escritório. Mas 14 dias depois nos chegou o link da matéria, que traz uma série de acusações sobre o trabalho do Saladorama, às quais ressalto e esclareço os pontos a seguir. A matéria questiona o impacto do Saladorama, a partir centralmente do relato pessoal de algumas pessoas:

-Jannaína da Silva, que foi colaboradora da empresa de 07 de março de 2016 a 28 de setembro de 2017 , e com a qual não temos NENHUM débito pendente. Jannaina recebia por RPA, uma forma diferente da CLT e perfeitamente dentro da lei. Ela, inclusive, me mandou um áudio no qual afirma “não existe nada disso de dívida. No que você precisar, eu estou contigo”. Jannaina ainda nos alerta que “vivemos num ninho de cobra e que tem gente querendo mal para a gente. Tem muita falsidade nesse mundo. Abre os olhos!” — Temos o arquivo de áudio desta conversa, bem como todos os documentos relativos à contratação e pagamentos da Jannaína e estes serão apresentados como parte de nossas provas e ficarão disponíveis caso haja interesse.

-Rebeca Thallya da Silva, que foi colaboradora da empresa por 1 mês e meio, com quem também não mantemos qualquer pagamento em aberto. O que aconteceu foi que para receber, ela teve que abrir conta no banco e, após encerrado o trabalho, a conta ficou aberta gerando prejuízos. Quando soubemos dessa situação, ajudamos ela a encerrar a conta e arcamos com os custos todos, por entendermos que a falta de experiência dela com o setor bancário e o universo do trabalho formal não deveria prejudicá-la.

-Polyanna Cintra, que se ofereceu para nos ajudar como captadora de recursos. Acordamos que ela receberia porcentagem sobre os editais que ela conseguisse captar. Ela não teve sucesso na tarefa. Não existia compromisso da nossa parte de remuneração fixa e nem contrato que regulasse a parceria, que era informal.

-Raíssa Nejaim: Foi voluntária do Saladorama no Rio de Janeiro, de janeiro a maio de 2015. Quando saiu uma matéria em um grande veículo jornalístico dizendo que nós faturaríamos 320 mil reais, ela entendeu que deveria ser remunerada e, por isso, entrou na Justiça alegando ter direito a 32 mil reais. (Cabe aqui a nota de que esse faturamento não foi uma declaração nossa e sim uma aproximação da matéria, feita pelo jornalista). A Raíssa perdeu nas duas instâncias, pois a juíza responsável pelo caso considerou descabido o pedido.

-Simony César: Fellow de uma rede empreendedora da qual também participamos. A matéria se limita a dizer que ela desconfia de que os números e as falas estavam fora da realidade”, mas não qualifica essa acusação. (Estamos preparando um report com todos os dados e mensuração do impacto gerado até aqui nesses anos de Saladorama. Muitos de vocês sabem que mensuração de impacto social não é uma ciência exata e nem algo simples de fazer).

A matéria da Agência Pública traz ainda uma suposição sobre nosso programa de formação empreendedora e nutricional para mulheres negras e trans, moradoras de comunidades que foi levantado por meio de financiamento coletivo em 2017. A campanha teve como proposta criar um curso para 20 pessoas e, para isso, levantou 31.797 (trinta e um mil setecentos e noventa e sete reais) de 624 apoiadores. A formação ocorreu de setembro a dezembro de 2017 na Escola Profissionalizante anexa ao Sindicato dos Tecelões, em Recife. Em parceria com a Rede Monalisa e formou 15 participantes, pois nem todos os inscritos puderam estar até o final. Não houve mais edições do programa, pois durante o seu desenvolvimento entendemos uma série de desafios inerentes a esse tipo de atividade e optamos pela descontinuidade. A campanha de financiamento coletivo era clara em dizer que estávamos nos aventurando em um território novo, e, por isso, prometemos apenas a primeira formação, em caráter experimental. Não à toa, nenhum dos 624 apoiadores reclamaram da ação. Muitos deles nos parabenizaram pela iniciativa e sentiram que seus recursos haviam sendo bem empregados em estimular algo que tem seu mérito apenas por existir, independente da continuidade e de novas turmas.

Nesses três anos de Saladorama, passaram por aqui mais de 50 pessoas entre funcionários, fornecedores e parceiros. Teremos um enorme prazer em colocar à disposição da imprensa essa lista de pessoas e organizações, para que outras vozes possam ser ouvidas, e outras matérias possam ser geradas, com outros pontos de vista.

A jornada empreendedora é complexa, cheia de desafios, de altos e baixos. Nesses três anos, tivemos muitas dificuldades em relação a gestão, execução das ideias, operacionalização, trato com a burocracia e uma série de outros problemas típicos da atividade empreendedora, agravados quando se empreende sem capital de risco, a partir da base da pirâmide, sem rede de apoio ligada aos setores mais poderosos e privilegiados da sociedade.

Tudo o que conseguimos foi fruto do nosso esforço e trabalho e das portas que pudemos abrir a partir de seleções abertas de prêmios, redes de apoio e outros suportes existentes. São essas redes que nos garantem mentores, feedbacks, orientações que permitem que a gente exista, entenda melhor os nossos erros, as nossas necessidades de amadurecimento e cresça. Nossa inscrição em muitas redes não é para satisfazer o ego, como acusa a reportagem. Ela se deve ao nosso desejo de conhecimento e parte do entendimento de que não viemos de famílias e entornos privilegiados, cheios de gente experiente no mundo dos negócios, que podem nos orientar melhor sobre gestão, liderança, fluxos e processos. Esse é o apoio que buscamos nos prêmios, editais, redes.

Dos pontos verídicos que foram levantados na matéria e estamos trabalhando arduamente para sanar:

- Gestão de pessoas: Não conseguimos gerir as expectativas daqueles que estiveram conosco durante o processo empreendedor.

- Publicidade: Vender nossos sonhos e projeções para o negócio sem deixar estritamente claro que se tratavam de projeções, fizeram com que muitas informações dúbias a respeito da nossa real entrega surgissem.

- Processos burocráticos: Quebrar protocolos impostos por nós mesmos foi a demonstração de que as vezes o sonho vai na frente da realidade. Demos a oportunidade de pessoas começarem um Saladorama pagando 20% do valor da franquia e parcelamos os 80% restantes em prazos enormes. Realmente era algo que tinha tudo para dar errado. O empreendedor com representação estadual, não conseguia fazer acontecer a franquia por falta de suporte. O suporte não acontecia porque precisávamos gerar receita, visto que o franqueado não conseguia honrar com o parcelamento e a expectativa era frustrada. Mesmo depois de dar errado nós entrávamos em contato ajustando a devolução integral dos valores investidos. E embora fizéssemos o estorno do capital, deixamos uma certa frustração com o negócio.

Outras ações como não atualizar o site, não atualizar apresentações e não divulgar relatório de impacto, de fato são falhas. Não conseguimos criar uma comunicação transparente sobre o que de fato temos feito de tão bonito e precisamos sim estar mais atentos quanto a isso. Percebemos que comunicar na página do Saladorama o fechamento das lojas para a virada de modelo há meses atrás, comunicar o início de novas formações e compartilhar a imagem dessas formações acontecendo não foram o suficiente. Precisamos fazer melhor. E o faremos.

Aos que nos acompanham, conhecem e torcem pela consolidação do Saladorama: Estamos nos esforçando para absorvermos o máximo de aprendizados nesse processo, na certeza que que a nossa missão e entrega são maiores do que qualquer dano causado ao nosso ego. Não vamos parar. Atualmente estamos em um processo de formação de 70 mulheres em comunidades no Recife e em São Paulo. Mulheres que nos abraçaram em um processo de confiança e que estão lutando junto conosco pela nossa manutenção e crescimento. Sabemos o que estamos entregando, para quem estamos entregando e por que o fazemos. E nos colocamos a disposição daqueles que quiserem conhecer melhor nossas ações. Estamos em pleno fluxo de formações em Recife, em Nova Descoberta e no Ibura ( às segundas, terças e quintas-feiras) e em Heliópolis (às segundas e quartas-feiras) até o dia 21 de Dezembro. Estamos de braços e corações abertos a receber todos vocês.

Hamilton e Isabela, sócios do Saladorama