Amor, eu olhei pra trás mais vezes do que o necessário, admito. Você me conhece, sabe da minha necessidade de perfeição melhor do que ninguém, desse meu medo de ser incompleta. De estar errada. Por isso essa mania contínua de olhar pra trás, tentando encontrar alguma frase, algum ponto de exclamação desnecessário ou uma risada fora de hora. Tentando encontraralguma coisa.
Sinto-me como se tivesse falado todas as frases certas, menos uma, ou todas certas, porém no momento errado, ou todas erradas no momento certo, ou sabe-se lá Deus o que diabos foi que eu fiz. Às vezes ainda me vejo colando post-its na parede. É bonito quando bate o vento e faz todos aqueles papéis coloridos se remexerem. Mas não significa muita coisa, eu sei. É apenas mania. Algo que eu deveria esquecer.
O trem passa todas as noites e às vezes consigo ouvi-lo daqui de casa, assim como às vezes ouço o mar. É irritante, sabe. Esse meu medo de que possa encontrar algo errado nas lembranças que me assombram, mas ao mesmo tempo não consigo evitar. Há alguma coisa comigo, eu sei, um parasita em meu coração arrancando todo espaço para qualquer outra pessoa e deixando só você ali dentro. Eu o odeio, mas não consigo deixar de amá-lo. Irritante, completamente irritante.
Em um desses dias eu pude ver meu reflexo no vidro da janela e enxergar os tais olhos muito marrons. Finalmente. Aguados e avermelhados, como se houvesse uma nuvem por cima deles, mas definitivamente marrons. Marrons como avelãs, como chocolate. Como as telhas molhadas de chuva e como a madeira cortada para fazer um armário. Marrons. Mas lá fora eu só enxergava verde.
Eu me via ali, naquele reflexo, mas o meu coração se enchia de verde, de grama, de folhas e de ervas daninhas. Talvez eu devesse arrancá-las, cortar o mal pela raiz, mas o vento sopra nos meus cabelos e me trás o cheiro do petrichor, da chuva nas telhas e nas ervas e eu sorrio. Não dá pra arrancar.
É por isso que eu continuo olhando pra trás. Porque, mesmo dominado pelas ervas daninhas, meu coração continua sendo um jardim verde e úmido, esperando meu semeador retornar e me transformar em flor novamente.