A análise da imagem sob o olhar de Alberto Manguel no estudo das partes por meio de um todo.

Mulher Chorando (1937); Óleo sobre tela, 60 x 40 cm; Tate Gallery (Londres)

A imagem como violência é um dos capítulos do livro de Alberto Manguel “Lendo imagem”, em que o autor examina obras de arte desde a Roma antiga até o século XX e as classifica como enigma, testemunho, reflexo, memória e violência. No capítulo já citado, a análise não só parte da obra, mas Manguel se detém em retratar como a vida do artista Picasso e de sua quinta mulher Dora Maar, influenciaram na criação e interpretação da pintura “Mulher Chorando” que Dora fora retratada. Além disso, o escritor defende a ideia de que toda imagem pode ser lida e traduzida em palavras, pode contar histórias, mesmo os leigos em arte podem compreendê-las.

A relação do texto de Manguel e das teorias de Gestalt ocorre no ato do estudo e da análise da imagem. A linha filosófica Gestalt traz ferramentas de análises muito úteis e práticas, pois suas leis foram criadas a partir de pesquisas sobre a percepção humana, principalmente a visão e numa análise de imagem em que esse sentido é extremamente utilizado, não podemos conhecer o todo através das partes, e sim as partes por meio da totalidade.

Então, “para conhecer objetivamente quem somos, devemos nos ver fora de nós mesmos, em algo que contém a nossa imagem, mas não é parte de nós, descobrindo o interno no externo […].” (MANGUEL, p. 185, 2001). Com este pensamento, durante a leitura do texto “a imagem como violência” quando o autor discorre sobre a “Mulher Chorando”, de outubro de 1937, nos permite reconhecer indícios de que, o próprio Picasso, foi reconhecido na pintura. Mas onde? A pergunta certa seria: “de que maneira?” Ao examinar o pequeno quadro, os tons de laranja e azul, verde e vermelho, violeta e amarelo se contrastam em diferentes posições. Vemos o chapéu vermelho com pequeno detalhe enfeitando em cima e um lenço nas mãos da elegante mulher. Ela estava arrumada e preparada para ter um dia alegre e num dado momento, ali está ela, “deformada pela dor” (pág 207, 2001). Conhecer a vida do autor se faz necessário neste momento, pois muitas vezes encontramos pontos de partida, ou em comum, nas reflexões do próprio artista sobre a obra.

Pablo Picasso, com 55 anos, tinha pelo menos 3 mulheres: Sua esposa, Olga Koklova; um longo caso com Marie-Thérèse Walter e Dora Maar, a quem raramente visitava. A maioria dos seus quadros pintava as duas primeiras mulheres cheias de curvas e na última, faces em cores contrastantes, distorcidas e sentimentais. Nem nos esboços de Picasso o homem era retratado dessas formas e sim como aquele que está acima da mulher ou alheio a tais sentimentos. O artista, geralmente pinta o que vê, o que sente ou o que lhe desperta interesse, mas aquele que sente a dor é quem observa e interpreta pra si o quadro. Há relatos no livro que Dora Maar não se reconhecia pintada ali, e sim a Picasso. Talvez a vontade do pintor de irromper em lágrimas e não o fazer por ser homem e talvez até hoje essa ideia perdure, ou o contexto histórico de guerra e libertação da França, ou a visão de sua amante chorando por causa de suas provocações (os amigos próximos relataram que ele brigava para que ela no fim chorasse e assim pudesse pintar a tristeza expressada da forma mais explícita possível) ou quem sabe, o seu interesse e relação intimamente ligada a características dessas mulheres foram o ponto de partida para que pintasse algo que comovia os olhos alheios.

Infelizmente, o relacionamento dos dois acabou de maneira trágica, Dora passou a ter visões e ataques nervosos. Foi enviada ao amigo e psiquiatra Jacques Lacan, por Pablo Picasso que já estava cansado do comportamento da amante, segundo a nova amante, Françoise Gilot.

Voltando ao pensamento de Gestalt e Manguel: com os métodos de analise corretamente aplicados na ordem, que é: a partir do todo, das linhas, das cores, dos elementos facilmente visíveis, e então partindo para uma análise aprofundada sobre o interior do artista e da obra no contexto histórico em que viviam, é possível aprender a ler uma imagem como se lê uma história nos livros. Uma certa característica da teoria Gestalt traz exatamente o porque automaticamente nos aprofundamos e identificamos a nós mesmos (ou a algo ou alguém) na obra. É sobre a Experiência Fechada, ela relata que ao conhecermos anteriormente determinada forma, definitivamente a compreenderemos melhor, por meio de associações de vivências anteriores. Sendo assim, no quadro de Pablo Picasso, o observador sério, alheio a história que originou a obra, ao reconhecer a violência da imagem, este, buscará em sua memória situações, maneiras inconscientes de se identificar. Ou se identificará como vítima, ou como aquele que gerou o sofrimento, ou ser alheio a tudo, mas nunca ser leigo total.

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Referências: MANGUEL, Alberto. Lendo imagens: Uma história de amor e ódio, Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das letras, 2001.

GESTALT, Psicologia e Filosofia. InfoEscola. Endereço eletrônico:

< http://www.infoescola.com/psicologia/gestalt/ > Acesso em: 04/09/2017