[mesa farta, mesa vazia]
Arthur e Sofia, os dois estavam juntos há quase 10 anos.
Ele acordou, preparou um café forte, sem açúcar, pra ajudar a voz a funcionar em dia frio.
Ela acordou, saiu às pressas, precisava chegar no escritório a tempo.
Arthur ligou o computador, fez um Skype com a avó que vivia em Minas, conversou amenidades, ouviu sobre a lagoa de Surubins do sítio e falou sobre a vida de adulto, se despediu dizendo que precisava visitar o Arpoador — mesmo num dia frio, precisava estar lá sozinho e pensar no que escrever.
Sofia pegou um mototaxi, amigo de infância que dirigia, foi pai cedo e escolheu correr pra pagar as próprias contas e ser independente, metrô Triagem, Hora do Rush — poderia ser o filme mas era a multidão, Work da Rihanna, olha o zap, ignora as 15 mensagens repetitivas de Arthur, estação Largo do Machado, forró na praça, escritório, 9 minutos atrasada.
Arthur deixou a mochila do seu lado direito, bem simétrica, tinha TOC dizia, e começou a repassar as memórias, quantas vezes ali naquele mesmo lugar na pedra, o sexo oral entre Cactus, o mar batendo repetidamente e forte. Suspirou de cansaço, não físico, mas emocional, tom de decepção consigo, deu início a escrita da carta.
Sofia, muitos problemas, muitas tarefas, cabeça cheia, o mundo dentro de si e ao mesmo tempo nada, a vida vai bem, sem dúvidas, alguns contatos e uma cerveja pra noite, talvez uma cama.
Ele chega no prédio, já era amigo de todos os porteiros, deixa uma carta:
“Amanhã vai completar um mês que não nos vemos. É melhor só seguirmos. Eu prefiro continuar com todo o amor que tenho por você do que ficar chateado com o que nos fez chegar até aqui.
Talvez a gente precise de mais um tempo mesmo, de verdade, antes de se reencontrar de novo, talvez a gente não se reencontre, não tava nos planos você me fazer tão bem, mas o fato é que numa mesa onde o amor não é mais servido, a vida não compartilhada, o olhar em silêncio não acontece, eu não desejo mais ficar.”
