O Nyabinghi do KMD-5 #RoletaRussa

Hanier Ferrer
Sep 3, 2018 · 3 min read

*texto produzido em colaboração com Rodrigo Caê, da festa Guetto e do selo Mondé Musical

Da esquerda para a direita: Dida Nascimento, Dikeu, Marrone, Yuka e Lauro Farias.

Na Baixada Fluminense, a sigla BXD está para o Rap, pra geração atual, assim como BF está para o Reggae, pra quem respirou artisticamente a região nos anos 80 e 90. Um movimento que pode ser entendido como “natural”, levando em conta o histórico da região, sua definição urbanística e localização geográfica; onde os gêneros periféricos que se originaram em Kingston e Nova Iorque, se conectaram totalmente, pela paisagem e indicadores sociais, levando em conta também, a diáspora sonora que atravessa os tempos em todo o mundo.

Daí, saíram bandas como KMD-5 (que posteriormente se chamou Negril) e Lumiar (que se tornou o Cidade Negra), líderes do movimento de seu nascimento até o seu auge, entendendo o Reggae,como uma cultura que gera experiência e aperfeiçoamento social, indo além de proporcionar um entretenimento musical às pessoas. Assim, Belford Roxo, que tinha o estigma de “cidade mais violenta do mundo”, começou a criar uma nova percepção de si mesma depois do “Boom do Reggae”.

Belford Roxo é um dos municípios mais precários da Baixada Fluminense e ao mesmo tempo um celeiro de grandes músicos. O estigma da violência se consolidou a partir de um relatório da ONU do final dos anos 80 que colocava Bel como a cidade mais violenta do mundo. Esse dado foi gerado de forma errônea, tendo em vista que era a partir do número de óbitos por assassinato. O que acontecia na verdade, era que a cidade foi feita de desova durante aquele período. Matava-se nos municípios vizinhos e jogava-se corpos em locais abandonados de Belford Roxo, assim o nº de óbitos iam todos para os registros da cidade.

A fim de lutar contra as mazelas sociais que abatiam a cidade, os artistas da época usavam suas letras como arma de protesto e conscientização. Como o Reggae, por natureza, se dedica a essas questões, os artistas da época abraçaram o gênero que consequentemente se tornou um grande vetor do desenvolvimento da música e cultura de Belford Roxo. Sendo o KMD-5 embrião de uma grande movimentação do Reggae no Rio de Janeiro que acontecia em paralelo à cena de Maranhão.

Com a correria individual e diversas outras questões, onde uma das principais era a gestão de tempo de Yuka para conseguir colar na BF e manter seus estudos na FACHA, o que gerou uma redução na movimentação da banda, era chegada a hora de mudanças, onde Lauro e Yuka decidiram seguir um novo rumo compondo O Rappa, dando seguimento aos ideias e posicionamento que Yuka construiu junto aos parceiros do KMD-5.

No mesmo ano de 93, mas num movimento inverso, Ras Bernardo saiu de sua banda, a Cidade Negra, escolhendo seguir uma trajetória que mantivesse uma verve de cunho político-social, diferente do que o grupo vinha se tornando, construindo sua carreira solo. Mas o que me pergunto, é se o encontro de Ras com Dida, nesse mesmo ano, em uma possível proposta de junção, não teria proporcionado uma boa surpresa para a cena “Reggae Baixada” que eles ajudaram a construir os fundamentos, tijolo por tijolo. Quem sabe, isso possa ainda acontecer.

Hoje, seu legado está presente de diferentes formas. Tanto na continuação das ações realizadas por Dida e sua família por meio do Centro Cultural Donana no bairro da Piam em Bel, apoiando saraus, rodas de rima e diversos artistas da BXD, quanto na influência para o surgimento de outros coletivos e bandas como o 3º Distrito Sistema de Som, o Sangue Rasta e o JamaiCaxias, além de espaços como o Galpão 252 em Nilópolis e o Toca Raul em Caxias.

O Nyabinghi continua a pulsar nas veias abertas da Baixada e se depender de nós, será eterno!

    28, Creative Director, Content Producer, Researcher and Concepter

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