Vamos conversar deboinhas?

Se você é empregador (principalmente da área criativa) e vai anunciar uma vaga na sua empresa (grande ou pequena), NUNCA use a máxima “não é sobre o dinheiro”, ou “se você está pensando no dinheiro, não aplique”.

Por que, Ranya?

Porque podem ser a vaga e empresa mais incríveis, com o propósito mais sensacional, com um potencial criativo, de inovação e crescimento sem igual… No fim é sobre o dinheiro também. Bastante, inclusive.

Isso porque você pode ter o trabalho mais irado, mas se dia 5 te sobram R$200 pila pro mês, ou se você mal consegue pagar as contas, e se não rola de comprar comida, um plano de saúde ou transporte pros 30 dias, mano, ô se é sobre o dinheiro. E se não era, passa a ser.

A parada é que a maior parte da galera que solta esse discurso, fala como se pensar em dinheiro diminuísse alguém, como se “ah, se fulano pensa assim em dinheiro é porque ele não se importa tanto com o propósito, com o que vamos realizar de maior”.

Hmmm… Sei não heim?!

Toda vez que eu vejo esse tipo de discurso, penso em empatia e em transparência. Vamos lá, com certos salários, principalmente em cidades caras como Rio e São Paulo, só quem mora com os pais ou recebe ajuda ($$$) deles consegue atuar em certos empregos iradíssimos, porém, com pay checks ínfimas. Tem gente que pode e gente que não pode. Mas aí, não é questão de anunciar uma vaga que “não é sobre o dinheiro” e sim saber que se está contratando um perfil que pode ($$$) se dar ao luxo de não depender desse salário. E tá tudo bem. Mas de novo, é sobre dinheiro. E sobre transparência.

Quando a gente – empregado – fala sobre esse assunto, chegam logo os questionamentos geracionais “ai, geração que quer largar 17h pra ir pra yoga”, e aquela galera que manda “ah, mas você pode fazer freelas e complementar sua renda”. Podemos muito. E fazemos mais ainda. Acho que nunca conheci um profissional da indústria criativa que não freelasse por fora. Só que você dorme 3h por noite, come mal, trabalha em janeiro pra receber em Maio e tá tudo bem, afinal, você está complementando sua renda. Sempre dá!

Mas aí a gente fala de futuro do trabalho, vê países e empresas cortando as jornadas de trabalho quase que pela metade e se pergunta: What the fuck, bro? Por que é ok eu trabalhar até perder minha saúde mental (e de vez em quando física)?

Pois é.

O sistema é capitalista. A gente vai lá e entra na economia compartilhada, cria vários hacks pra quebrar padrões financeiros/sociais, debate sobre e aplica novos mindsets, mas no fim do dia, ainda precisamos pagar contas, mesmo que essas já sejam bem mais leves que as da geração que fazia de um tudo por casa e carro próprios (e eles nem estão tão distantes assim da gente).

Aí eu te pergunto, empregador: qual a sua prioridade? Como você formula os salários da sua equipe? Vocês podem estar com o “mas eu pago compatível com o mercado” na ponta da língua, mas creio que “estar compatível com o mercado” não implica inovação, sair do lugar comum. E por que não sair do lugar comum em uma questão que afeta diretamente quem faz a sua empresa?

Se a maioria das empresas criativas colocassem na ponta do lápis, veriam que poderiam cortar custos de elementos que fazem delas mais “cool” e desejáveis in order to pagar melhor seus funcionários. Deve doer cortar certas coisas que constroem a imagem mítica do que é ser “cool”, mas ter uma equipe com uma vida mais equilibrada também traz frutos maravilhosos. Diferentes, mas ainda assim maravilhosos.

Vez por outra aparecem denúncias e relatos sobre empresas top of mind do mercado e nós só pensamos, como diria a musa Maísa, “meu mundo caiu”. Mas nós somos as mesmas pessoas que entramos nesse looping e permitimos que a indústria criativa se valha da desculpa de que dinheiro é pra galera “velho mundo”, pros capitalistas que não sabem o que é inovação. Nós somos as pessoas que não exigem que empresas ditas inovadoras, comecem a pensar salários e/ou jornadas de trabalho de uma forma diferente. Temos gestores que não sabem o custo de vida básico em um bairro de classe média, mas querem os jovens com a melhor formação e as referências mais iradas. E aceitamos isso. Baixamos a cabeça porque precisamos de emprego, mas e aí, quando vamos começar a discutir abertamente essa coisa toda?

Sim, a lei trabalhista do país, ao mesmo tempo que tenta resguardar o funcionário (não tão bem assim), pesa a mão nos impostos e endurece certas regras que dificultam o ato de empreender e empregar no país. Mas essa é realmente uma barreira inquebrável?

Tava só pensando aqui com meus botões…