Evoluir é deixar de ser birrenta

Art by Francisco Lopes

Hoje passei umas 3 horas dentro de um ônibus que vai da capital do estado pra uma serra tão bonita que chega a dar dó o fato de não ter uma câmera em mãos. Engraçado é que faço este trajeto há pelo menos 5 anos, pelo menos a cada duas semanas pra visitar a minha família no interior, mas nunca quis tanto uma câmera quanto hoje.

Mas esse texto não é só sobre paisagens, é também sobre como a gente não percebe como os nossos hábitos mudaram rápido.

Nunca fui muito ligada em tecnologia, nasci numa cidadezinha do interior com seus vinte mil habitantes, um lugar onde todo mundo se conhece e é rodeado por uma natureza incrível. Um lugar onde todos os teus amigos se encontravam pra subir em árvores no verão e comer umas frutinhas brancas que pareciam feijõezinhos de açucar. Ou seja, um lugar completamente diferente de Porto Alegre.

Apesar de eu adorar aquele ambiente natural e tranquilo, eu sempre me envolvi em atividades que me faziam conhecer pessoas, muitas pessoas. Campeonatos de vôlei com times do brasil inteiro, festivais que meu coral participava que tinham mais muitos corais de gente show pra conhecer e amar cada dia mais as pessoas. E eram esses momentos que alimentavam devagarzinho dentro de mim essa paixão secreta por grandes cidades e que resultou na minha ida pra Porto Alegre anos depois.

O tempo foi passando, fui conhecendo cada vez mais gente, do interior e da cidade, dentre essas, algumas que tinham contato com a tecnologia muito antes do que eu. E sempre que eu refletia sobre a minha relação com a tecnologia eu chegava na mesma conclusão: eu sou um zero a esquerda nisso, não deve ser pra mim, não consigo nem instalar um software de arquitetura no meu próprio computador pra fazer meus trabalhos da faculdade (é sempre uma amiga muito maravilhosa e prestativa que me ajuda, porque eu simplesmente continuo sem entender aquilo), e eu pensava que devia ser porque enquanto eu subia em arvores e chupava feijão de açucar, essas pessoas já estavam aprendendo a usar essas maravilhas da vida moderna.

Mas há pouco tempo atrás eu percebi que as coisas não são bem assim. Conheci uma pessoa maravilhosa incrivelmente parecida comigo e, pasmem, muito ligada em tecnologia. E mais do que isso, sempre que o assunto era esse eu concordava com quase tudo, com a conexão entre as pessoas, com o compartilhamento de emoções e conhecimento, com tudo de lindo que pode vir dela. E como eu posso ter negado ela na minha vida a partir do pressuposto de que eu nunca serei ‘boa’ naquilo porque sou interiorana e bobinha?

A questão é que até então eu não tinha percebido o quanto eu amava essa tecnologia e como ela sempre esteve na minha vida me ajudando a viver como eu gostaria. Pensei em todos os amigos de volei com quem, inicialmente, eu trocava cartas, afinal essa era a tecnologia que eu tinha acesso na década de 90; e aí quando chegou o orkut na minha vida todas essas amizades explodiram no meu peito porque era muito mais fácil estar pertinho dessas pessoas.

E isso percorre os vários campos da minha vida, a minha curiosidade por descobrir coisas engraçadas que acontecem no mundo, coisas incríveis sobre o universo, tudo. O que essa pessoa me mostrou foi que eu também sou uma apaixonada pela tecnologia, porque eu sou uma apaixonada por pessoas.

Perceber isso fez com que eu deixasse a minha birra de lado depois de 22 anos de vida e ter aberto uma frestinha da porta pra dar uma chance pros smartphones, que eu negava há vários anos. Além disso, comecei a ser muito mais critica com as ferramentas digitais do que antes, que achava que tudo era culpa minha que não sabia mexer nisso ou naquilo. Essa mesma discussão me fez perceber que pra falar sobre isso e argumentar não é necessário conhecer todos os meios técnicos envolvidos, o fato de tu ser um usuário dessa tecnologia já te da muito poder de opinião sobre a qualidade dela. Nesse momento percebi que o problema não era eu.

Comecei a me interessar em fotografia e tirar fotos como nunca, me interessar muito em vários assuntos, ted talks entraram arrasando quarteirão na minha vida, comecei a renovar a minha vontade de aprender outras línguas, que sempre foi um obstáculo enorme na minha exploração do mundo (entra para a série das coisas que eu tinha vergonha e birra por não conseguir), e tudo começou a rolar de um jeito tranquilo. Dentre essas descobertas estão ted talks maravilhosas criticando tecnologias que nos deixam nervosos, que são mal-feitas e que não merecem a nossa auto-culpabilização. Tudo isso se compactava num negocinho na minha mão maravilhoso que até então eu achava que 'eu não precisava porque eu não me dou bem com essas coisas, sabe?’

Ele foi incrível na minha vida e foi bom enquanto durou, porque há dois dias ele sumiu da minha vida numa dessas noites que a gente vai pra um lugar cheio de gente e é escuro e barulhento. Mas até então eu não tinha conseguido entender a revolução que esse objeto fez na minha vida. Foi só hoje enquanto eu olhava pela janela do ônibus e pensava como eu gostaria de fotografar e compartilhar aquele momento com as pessoas é que eu pude entender como ele me ajudou a expandir o minha capacidade de exploração do mundo e de mim mesma, porque se todo esse processo não tivesse acontecido, eu certamente não estaria aqui começando a escrever numa plataforma maravilhosa de compartilhamento de idéias como essa que a gente só descobre quando abre a nossa mente e olha o universo ao nosso redor.

Obrigada aos envolvidos por me mostrar como não vale a pena ser birrenta.

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