Sarar

O canto que ecoa um pedido de cura

Poucos dias após o lançamento oficial do projeto “As Lavadeiras Convidam”, apresentado na noite de 1º de abril no Sailors Pub, em Mogi das Cruzes, Sarah Key assiste pela primeira vez aos melhores momentos do show organizado por ela e a amiga Karen Dias.

Aquela havia sido uma noite especial — se não histórica — para essas mulheres. Conhecidas pela mistura da lírica do rap com os ritmos da cultura popular de raiz, As Lavadeiras é um grupo cuja proposta é dar voz ao universo feminino com muita musicalidade.

Sentadas no chão da sala, na “casinha” da Karen, ambas têm os olhares fixos na tela do notebook. Sarah vibra o tempo todo, quase como se estivesse vivendo aquele momento outra vez. “Sem caô, mimimi… na caixa, Dina Dee!” — imita a entonação da amiga e a elogia, voltando o vídeo para ver aquele instante de novo.

Na aura daquele ambiente, é possível sentir que elas fazem aquilo com o coração.

Sarah Key de Almeida nasceu em Mogi das Cruzes, região metropolitana de São Paulo, em uma sexta-feira 13 de 1987. Segundo a mãe, Dona Lina, o nome da filha é uma homenagem à Sara Kay, uma artista que ela conheceu enquanto trabalhava numa lanchonete. “Na sua ingenuidade e simplicidade, minha mãe colocou o nome da maneira que ela ouviu: Sarah Key, e eu prefiro a minha versão”, brinca.

Infelizmente, Dona Lina faleceu no início de 2017 e hoje Sarah mora sozinha com seus três fiéis companheiros: Loro, um papagaio educado que sempre diz “oi” e “tchau” para as visitas; Mafalda, uma gatinha reservada e muito dengosa; e Belinha, uma cadela estabanada de meio metro que apesar da idade se esquece que já não é mais uma filhote.

No último dia 8 de março, Sarah completou 10 anos sendo vegetariana. “Sempre fui adepta à ideologia do vegetarianismo, principalmente pelas influências das bandas que eu ouvia”. A decisão final, segundo ela, ocorreu quando ouviu de um amigo: “quando você compreende que a vida de um ser é mais importante que sua luxúria e prazer, você simplesmente para de comer carne”.

Aos 30 anos, ela busca viver sua vida apenas no momento presente. Aqui e agora. Degustadora de um bom chá e amante da natureza, desde 2013 Sarah Key é praticante da Vipassana (técnica de meditação que consiste na auto revolução por meio da introspecção e do autoconhecimento) e propaga esses ideais nas letras que escreve.

Carrega os traços da herança do Brasil em seu olhar. Descendente de indígenas, Sarah tem os olhos puxados de sua bisavó, os cabelos escorridos e um estilo autêntico. Além, ainda, das orelhas marcadas pelo uso de alargadores e as nove tatuagens espalhadas pelo corpo, “todas lindas, coloridas e cheias de história”, completa.

Entretanto, Sarah diz não saber ao certo o ponto de origem do seu sangue indígena. “Não conheci meus avós e minha mãe também não sabia muito”. E conta que isso não a desanima, “é a busca da minha vida, minha identidade e minha raiz. Eu ainda vou buscá-la!”

Educada sem o pai presente, ela faz questão de enaltecer a verdadeira garra que carrega dentro de si por ser filha de mãe solteira. Em uma de suas letras, desabafa: “o pai? Sumiu. Ninguém viu / efeito colateral de ser mulher no Brasil”.

Na infância, ela não nega que foi uma criança boca suja e sem papas na língua. Cresceu junto de sua irmã, primos e crianças do bairro. Lembra que preferia as brincadeiras de rua, gostava de subir em árvores, andar de patins e se orgulhava por ser a goleira do time de futebol da turma do bairro, muitas vezes sendo a única menina do time.

Desde cedo aprendeu a ser responsável e, aos 13 anos, Sarah Key já trabalhava como babá de outras crianças. Por essa razão, ela diz que já no início da adolescência deixou de pedir autorizações para sua mãe.

Uma das maiores referências de sua carreira surgiu nos auge de seus 15 anos, quando ela começou a se interessar pela cultura do hip hop. Atraída por grafite e pichação, logo adotou essa arte como forma de expressão. Também lembra que dançava b-boy, um tipo de breakdance, e infelizmente, teve que abandonar as aulas porque seu professor tinha ideais extremamente machistas.

Ao ouvi-la contar que deixava suas fitas cassetes gravadas na RCP FM, uma rádio de música negra que fazia sucesso nos bailes da grande São Paulo, é possível sentir o gosto da nostalgia em suas as palavras.

Sarah afirma que costumava ir aos shows e batalhas de MCs de sua cidade e que suas principais inspirações foram Soraia Drummond, o grupo SNJ e Dina Dee.Eu era adolescente e a Dina Dee bombardeou minha mente de ideias. O rap nacional dos anos 90 e 2000 fizeram a minha construção pessoal”.

Já na fase adulta, ela conta como conheceu o cortejo de maracatu e se aproximou da cultura popular brasileira. “O Suburbaque foi a porta de entrada da minha caminhada na arte”, explica, “a partir dele é que veio o contato com todo o resto. Primeiro o Jabuticaqui, depois os Contadores de Mentira e Batucaia, que é o grupo em que me estabeleci.”

Os grupos percussivos, próprios da cidade, são responsáveis por reproduzirem os ritmos tradicionais de Recife, Pernambuco e Maranhão. “Eles foram as maiores influências para a mistura do rap com o maracatu, coco, boi, ciranda e entre outros”. Conectadas pelo gosto da cultura popular, Sarah não esquece que acabou conhecendo a Karen em uma das oficinas do Jabuticaqui.

Em 2014, as duas se encontraram em um evento na Casa Fora do Eixo, em São Paulo. “A Karen ia se apresentar com um cara a acompanhando no violão e eu ia tocar alfaia com o Suburbaque. Por algum motivo, ele não apareceu e eu acabei acompanhando a Karen na percussão”. A partir daí, a conexão entre as duas só se fortaleceu.

No mesmo ano, ambas faziam parte das oficinas de MCs realizadas na Casa do Hip Hop, em Mogi. Por incentivo do Acme, amigo e coordenador das oficinas, a atividade acabou garantindo uma apresentação da dupla num evento de hip hop realizado na cidade.

Sarah explica que foi o próprio Acme quem sugeriu o nome “As Lavadeiras”. “No começo ficamos receosas porque o achamos meio pretensioso, mas no fim acabamos adotando e hoje vejo que não podia ser outro nome”, esclarece.

Quando questionada sobre as inspiração e objetivos d’As Lavadeiras, Sarah explica que “nos inspiramos na nossa própria caminhada e às vezes a gente tenta organizar nossa carreira do jeito que queremos, mas a vida tá sempre nos jogando para o outro lado da parada.”

Sarah tem alguns empregos registrados na sua trajetória profissional, mas ressalta que nunca se contentou com a forma tradicional de trabalho ao qual as pessoas são submetidas. Por esse motivo, decidiu pagar suas contas trabalhando apenas com o que a faz feliz.

Feito essa escolha, ela diz que sofreu inúmeras cobranças e julgamentos. “Já fui muito taxada de preguiçosa”, comenta, “mas tem apresentações em que eu a Karen voltamos sem um centavo no bolso. Muito pelo contrário, fazemos o possível para estarmos ali fazendo um som.”

Embora valorize seu trabalho como MC hoje, Sarah também admite que sua ficha de que esta era sua profissão demorou para cair. “As pessoas costumam encarar como brincadeira, então eu passei a tratar isso como um trabalho normal… Eu tenho a obrigação de cumprir com o que eu acredito ser a minha missão: estar nos lugares onde as crianças, e as pessoas no geral, não têm condições para ter acesso àquilo”.

Ao falar sobre o reconhecimento do público, seus olhos chegam a brilhar. “Quando estivemos em Foz do Iguaçu, um lugar onde eu nunca imaginei que chegaria, uma menina me chamou de canto e disse ‘eu quero aprender com você’, fazendo uma referência à Sarar. Aquilo me tocou de uma forma…”, respondeu.

“Sarar” é a última das cinco músicas do primeiro EP d’As Lavadeiras, lançado em 2016. Dentre todas as faixas, Sarah explica o porquê de “Sarar” ser a sua favorita. “É louco quando perguntamos às mulheres no show qual música elas querem ouvir e todas repetem quase como se estivessem nos fazendo um pedido de cura: ‘eu quero sarar’. A música causa alívio nelas, é incrível!”

De acordo com ela, é importante que as pessoas que vão aos shows estejam presentes e dispostas a realmente ouvir o que estão falando nas letras. “Compreender de verdade a mensagem e todo o processo que ela levou para chegar ali, é o que as pessoas podem fazer para respeitar e valorizar nosso trabalho”.

Por fim, Sarah Key revela que graças ao rap e As Lavadeiras, ela se sente capaz de ter uma vida bem sucedida, coisa que antes parecia fora de seu alcance. “Ter uma criança que nem te conhece te abraçando como agradecimento… Isso é o que me faz bem sucedida”, conclui.