O dia que parei.

Um certo dia, parei.

O dia que parei, também foi o dia que surtei.

Foi também o dia que não fiz o que queria fazer como tem sido nos últimos tempos, apenas subi pro alto de um telhado, respirei fundo e me permiti chorar. E foi o suficiente para que chorasse por outros 3 dias seguidos.

O simples movimento de subir uns lances de escada e estar no andar superior de um prédio, no teto, observando a cidade ao meu redor, o horizonte do mar e as fronteiras montanhosas, causou um mim o despertar da amplitude. A incrível noção de “vida”. Sair do micro-espaço, do micro-mundo que vinha vivendo, e refletir.

A sensação era de total medo, desconhecimento e insegurança. Andava na rua sem saber quem eu era, o que estava fazendo e quem eram as pessoas ao meu redor, e a água caia dos meus olhos sem controle algum.

Chama-se “crise de identidade”, se é que ela realmente existe. Uma das piores faltas de ar e ansiedade que se pode vir a ter, mas um privilégio sem tamanho que deve ser vivido com muita sabedoria.

Você percebe que já é uma pessoa madura quando está na pior, sabe que está na pior, mas aproveita cada segundo disso para crescer, e ter uma crise de identidade dessa maneira é no mínimo construtivo.

A minha vida foi sempre um grande depósito de certezas, na família, nas amizades, no amor, na religião, nos hobbies, nos habitos, na carreira que sonhei... Sempre soube o que combinava comigo, o que queria por perto, e estava tudo ali pendurado no meu armário da zona de conforto.

Agora experimente parar a sua vida com 19 anos, ir para outro país, com uma outra língua, com pessoas que vem de outros mundos, te apresentam o mundo delas, e entram no seu fazendo uma das trocas mais lindas em tudo que já vi nas relaçōes humanas. Experimente. E pare.

Pare. Surte. Respire, e veja: nós podemos mudar. Um dia você se afasta de tudo que faz de você, “você mesma”. E precisa entrar num processo de dentro pra fora, onde se descobre com o que está na sua alma, mente e coração. E não com um aglomerado de bens materiais, lugares e pessoas.

Você se permite viver o desconhecido, amar o novo, redescobrir pequenas coisas…e de repente as certezas se transformam nos maiores pontos de interrogação que podem existir. Você percebe que muitas vezes a vida não passa de uma rotina dura que te faz seguir cegamente o mesmo caminho todo dia, sem se questionar.

Evidentemente nuca me vi “obrigada” a fazer nada na vida que levava, inclusive a apreciava muito. Foram anos fundamentais na minha formação, no meu caráter, e nas minhas relações. Não sou nem ingênua, nem ingrata, ao ponto de descartar toda uma vida feliz em nome de um ano, apenas uso esse texto como relato de um divisor de águas. E é ai que voltamos pra historia de dentro pra fora.

Viver um ano longe das coisas te faz conhecer os sentidos, e olha que nem cheguei no fim do ano.Você percebe que as coisas que realmente importam não são coisas. estão naquilo que te tira o riso, no vento que sopra, no cheiro do mar, nas conhchas esquisitas, nas latas de atum com vestígios de areia, no tempo que te permite pensar, nas crises de angustia, na felicidade transbordante, num som de violão, num por do sol na praia, no eco que a voz faz no deserto, num céu estrelado, numa barraca de camping…

Foi dificil assumir algumas coisas ao longo da análise que venho tendo sobre minha existência nesse mundo. É um trabalho doloroso enxergar em si mesma coisas que fazem parte da escória da sociedade. Falo isso não com tranquilidade, mas com a paz de saber reconhecer e ver isso como algo que enfim não faz mais parte do que vivo. Porque ninguém “É” nada, nós “estamos sendo” algo em determinado momento. E é revigorante estar sendo cada vez mais eu.

Quando achar o momento, um dia, um ano da sua vida, pare. Antes que a vida deixe de fazer sentido, antes que teu riso não seja feliz e teus dias não sejam reais. A maneira mais lenta e dolorosa de matar-se não é cortando os pulsos, e sim os impulsos. Mas esse é um segredo que ninguém te conta. Pare, e se busque. Vai dar medo, vai dar vazio, mas é no fundo do silêncio de nós mesmos que vive a nossa alma.