Pseudocode — Vida de Barista

[Disclaimer: A série 'Pseudocode' é uma ficção. Algumas partes podem ter se baseado em casos reais. Qualquer semelhança é mera coincidência]


Não conseguira obter um emprego de barista há alguns meses atrás em uma das maiores redes de coffee shops no país. O diploma na área de computação fez com que o RH automaticamente redirecionasse sua aplicação para o departamento técnico, justamente onde não queria trabalhar. Paciência.

Por um mero acaso, ouvira duas mulheres conversando no ponto de ônibus: "… desesperada para achar um funcionário temporário, agora que a Érica está de atestado até o final de agosto. Espero que ela consiga alguém logo, não estou dando conta do serviço, Jéssica. Você não tem noção, não aguento mais fazer café. Nem o cheiro eu quero mais sentir". Após considerar que a última frase foi quase um desrespeito ao precioso líquido inspirador, timidamente perguntei se por um acaso muito grande trabalhavam em um café. Depois de uma suspeita que se confirmou verdade, elas acrescentaram: "E precisamos de alguém até o final de agosto". Foi tudo muito rápido — disse que estava a procura de emprego, poderia ser temporário mesmo, e que sabia tudo sobre café. No dia seguinte, fui para a entrevista.

Um bairro nobre da capital paulista foi o cenário para a conversa com a dona do estabelecimento, que para minha surpresa, me entrevistou em português, inglês e francês. Disse que os idiomas eram um 'diferencial excelente para a vaga de barista'. Apesar de achar aquilo um pouco absurdo, prossegui e fui preparar alguns expressos, lattes e capuccinos a fim de mostrar conhecimento na área. Agradei a todos, mas tive a impressão de que a dona estava mais interessada no fato de conhecer três línguas e não no resultado final do vanilla latte. "Combinado então, você fica conosco até o final de agosto, trabalhando em meio período".

Finalmente conseguira sair do 'mundo dev'. Estava insatisfeita com a carreira há tempos — gostava de pensar, de criar, mas tudo que conseguira com Web fora fechar tickets no JIRA, sem muitas chances de poder opinar em decisões técnicas. O último ano fora um dos piores, onde tivera que gastar a maior parte do tempo em engenharia social com jogadas mestres para convencer CTOs mimados que nem sempre tinham razão. Toda vez que pensava naquilo tinha uma náusea súbita.

Era um longo caminho de casa, na periferia pobre da cidade, até o estabelecimento. Morava numa casa escura e gelada, insuportavelmente fria para aquele final de julho. "Trabalhar com café quentinho vai ser ótimo". E foi. Os primeiros dias foram excelentes e a patroa permitia que tomasse café quando quisesse.

Também entendi o motivo dos 'idiomas serem um diferencial': muitos estrangeiros passavam pelo local e as colegas de trabalho, Jéssica, Aline e Karen não falavam inglês. Elas agradeciam quando aparecia para auxiliá-las sempre que um cliente que não falava português surgia no estabelecimento.

"Onde você aprendeu tudo isso?", perguntou Jéssica, no final do expediente, depois de instruir um casal de australianos sobre como pegar metrô na cidade. "Isso o quê?". "O inglês, mulher!". "Ah! Por aí". Insatisfeita com a resposta, Jéssica não disse mais nada, mas continuei: "Quer praticar? Eu te ajudo se quiser". Tudo se desenrolou bem — no dia seguinte, em companhia de Karen, comecei a ensinar as frases básicas para atender clientes. E as duas aprenderam rápido — em três dias, elas conseguiram atender estrangeiro que pediu um capuccino.

Era um dia gelado no comecinho de agosto. Um grupo de jovens de não mais de 25 anos de idade veio ao café e todos pediram chocolate quente. Não pude deixar de ouvir o seguinte trecho de sua conversa: "… eu vi que tem uma linguagem que chama Rust, deve dar pra fazer nisso, mas não sei usar". Quando fui levar as bebidas até a mesa, eles continuavam falando sobre Rust. Depois de distribuir as bebidas, não pude me conter e comentei: "existe um meetup aqui na cidade sobre isso". "Isso o quê?", um deles indagou, muito surpreso. "Rust". Virei as costas e voltei para o balcão. Não sei que rumo a conversa tomou.

Alguns dias depois, os mesmos jovens voltaram ao café. Quando me viram, nem pediram suas bebidas e indagaram: "Como você sabia do meetup? Entramos em contato e o pessoal foi super amigável, até nos instruíram um canal no IRC!" Sorri e prossegui: "Que bom. O que vão querer? Vanilla latte está na promoção".

Por ironia do destino, as coisas não parariam por aí. Na mesma tarde, recolhia o pedido de um outro grupo de jovens. Um deles olhou fixamente para mim e lançou o seguinte comentário: "Acho que já vi você em algum lugar". Sem ter tempo de achar que aquilo pudesse ser uma cantada de mau gosto, uma mulher que estava no grupo completou: "Tive a mesma impressão, acho que… eu já vi uma palestra sua sobre NoSQL". "Ah! Pode ser. Tenho algumas". Nesse momento, um outro integrante, aparentemente atrasado, veio de encontro à mesa, dirigindo a palavra para os outros dois membros que haviam interagido comigo há pouco: "Clara, Ricardo, desculpem o atraso, deu pau no Postgres. O Heroku também estava instável, aí me atrasei. E… por Deus, o que diabos você está fazendo aqui?" A pergunta foi para mim e nesse instante percebi que conhecia o sujeito. "Olá, Marcelo! Eu trabalho aqui. O que vai querer? O tempo está ótimo para um capuccino". "Que tipo de brincadeira é essa?". Marcelo perguntou em voz alta, tão alta que chamou a atenção da patroa, que estava sentada na mesa ao lado. Ela olhou para mim: "Algum problema? Algo errado, senhor?" Marcelo ficou sem graça e pediu um expresso duplo.