Sendo bom em X

Quando eu era criança, queria ser boa em um punhado de coisas. Não necessariamente em tudo, mas queria ser boa nas coisas que me despertavam interesse. Por exemplo, gostava de todas as disciplinas de exatas na escola e queria ter bons resultados nelas sempre. O tempo e a experiência te mostram que nem sempre isso é possível, mas o que vale é o esforço investido. Mais do que qualquer nota, vale o que você aprendeu. Transportando isso para a vida de Universitária, queria ser boa nas coisas que achava interessante. De novo, ser bom é diferente de ter notas boas, ao menos no meu humilde conceito.

Comecei a traçar um mapa mental do que era 'ser bom em X' (sendo X um tópico qualquer). Ser bom naquilo significava conversar normalmente sobre o tema, com a mesma naturalidade que eu conversaria sobre Pokémon. Ser bom naquilo significaria que eu conseguiria enxergar utilidade para aquele tópico em situações cotidianas. Ser bom no tópico tal implicaria que eu conseguiria despertar interesse nos meus colegas para o assunto também, transmitindo meu entusiasmo e paixão através da fala ou escrita. Ser bom naquilo me tornaria capaz de fazer piadas embasadas no assunto (e que provavelmente só as pessoas que tivessem ouvido falar sobre X entenderiam e talvez rissem. Os que não conhecessem X por ventura me trollariam e me chamariam de 'nerd' e eu os ignoraria). TL;DR: Ser bom em X — posso ensinar sobre X para qualquer pessoa. Posso adequar X, por mais complexo seja, para qualquer nível.

Posteriormente descobri que não era simples ser bom em X. Há coisas que eu queria ser boa, mas não entravam em minha mente. Cálculo foi assim. Batia aquela frustração incontável, que talvez tenha atingido alguns de vocês: "Mandava tão bem em matemática no colégio, por que tomei pau em cálculo na faculdade?". E de fato eu tinha uma dificuldade absurda com Cálculo. Não conseguia ser boa. Não conseguia ser boa naquilo porque aquele conceito era muito prematuro em minha vida. Ele era complexo demais para que em pouco tempo eu me tornasse boa. Não conseguia ser boa naquilo porque não conseguia prestar atenção na beleza daquilo tudo! Durante a graduação, com raras exceções, os professores não citavam onde eu poderia aplicar aquelas definições todas. Não lhes culpo, mas isso desestimula a mente sedenta por aplicações dos jovens engenheiros. Prossigamos antes que um extenso debate sobre metodologias de ensino e educação se inicie, fugindo ao tópico principal desse post.

E foi aí que entendi que pra ser boa em algo, precisaria absorver a essência daquilo. E isso requeriria alguns anos. Anos de teoria e também aplicação. Precisava sentir necessidade de cálculo. Precisava sentir necessidade de pegar uma solução, utilizá-la, gritar pro mundo "QUE BOSTA ESSA SOLUÇÃO, CEIS TÃO FAZENDO ERRADO, NÃO É POSSÍVEL, NÃO TEM NADA MELHOR NÃO?" e ouvir a resposta do mundo pra mim: "NÃO TEM, PORRA, SE QUISER INVENTA! SE TIVER CAPACIDADE" (claro, o 'mundo' tende a te achar um incapaz). Precisava também bancar a super-heroína e produzir minha tréplica pro mundo: "TO FAZENDO, FDP". E nesse momento mágico, senti a necessidade real da matemática. Senti na pele. Foi uma sensação feliz e triste ao mesmo tempo. "Finalmente! É aqui que uso isso!". Paradoxalmente: "Nossa, preciso de muito mais do que vi na graduação".

E aí então começa a jornada de longas noites de busca por conhecimento. Muitos dólares gastos na Amazon com livros de coletâneas de papers. Muitas horas de Google. E nasce então uma admiração infinita pelo tema. E ele começa a se tornar natural no seu dia a dia. Durante a corrida de 5k você pensa no tal tópico. Ao assar um bolo você matuta: "hmm, e se em vez de modelar isso com vetor, por que não uso um tensor aqui e ali e…".

E essa naturalidade indica que você está ficando bom naquilo. Aquele X que você tanto queria ser 'o cara' há um tempo atrás está se tornando rotineiro. E mais: aquele tema começa a se tornar um hobby, uma pequena paixão. Você o admira, gasta teu tempo naquele tópico, enxergando onde ele poderia se encaixar. Você se pega, erroneamente, perguntando a pessoas aleatórias se elas conhecem algo sobre X. Você se pega procurando pessoas para compartilhar o assunto e vasculha o meetup.com em busca do tópico. Vai a conferências sobre X, ou que possam tratar de X. Publica artigos cujo X é a base. Palestra sobre X. Não aquelas palestras vagas, decoradas, montadas por outras pessoas ou superficiais. Você transborda a essência de X. Responde a perguntas da platéia com entusiasmo. Quando colegas comentam "o que você faz se não souber responder a pergunta que lhe fizerem na palestra?", você nem esquenta; essa ideia nunca lhe passou pela mente: "Se eu não souber, posso pesquisar. Se não houver respostas, posso bolar uma solução alternativa".

E então posso lhe assegurar: você é bom em X.

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