Confissão de um abestalhado decepcionado

Francisco Mateus
Jul 24, 2017 · 2 min read

Talvez eu tenha vendido parte da minha juventude para o tempo em troca de algumas cervejas e um pouco de maconha. Sim sim, é verdade que antes eu costumava gastar a sola do all star desbotado andando pelas ruas do centro. Mas digo agora que é verídico o sentimento de tentar preencher o vazio existencial com o trabalho mecânico, de todo dia bater ponto para no fim da tarde ter um mínimo de prazer comendo um sanduíche de queijo, já na espera pelo próximo dia.

O mínimo de lucidez que tenho com relação à minha situação de jovem desesperado é ao puxar a fumaça verde. Aí olho para o céu aberto da madrugada, e penso que poderia ver as mesmas estrelas de um outro lugar, talvez do Rio de Janeiro, ou até mesmo Lisboa. Mas ao voltar para a sobriedade, sinto novamente as correntes me prendendo à cidade do sul.

Pessoa me ensinou a não se preocupar com o que há depois da curva da estrada, porque o que importa é a estrada que eu consigo ver. Ele só não me ensinou a sobreviver ao frio ensolarado da cidade, e a como digerir o Ouro de Tolo que me é servido diariamente.

Meu poeta salvador morreu escondido, exilado no sul, e sua voz está emoldurada na parede da minha memória ao lado de um pedido de socorro. Então me vejo viciado nos discos de vinil. Um vício químico, sentimental, para fugir do desespero do dia a dia.

“ E nós nem pensamos na felicidade…”

    Francisco Mateus

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