Crônica fracassada

Filme: Oslo August 31st; Joachim Trier

Outro dia me pus a caminhar pelo bairro à procura de uma crônica. Algo como a vez em que, próximo à estação Faria Lima, fui surpreendida com a privilegiada visão de um grupo de crianças se divertindo às custas de uma saída de ar, dando passos foliões sobre o gradil e rindo o riso que eu sempre quis escrever, mas nunca consegui. Ou de pungência semelhante à da ocasião em que entrei no vagão do metrô em direção à Tamanduateí e sentei-me ao lado de uma moça bonita que chorava, sem discrição alguma, o pranto mais urgente que já contemplei.

Nesse dia, dia em que procurava uma crônica, cortei as ruas sem itinerário, passei por quarteirões de residências quietas, uma funerária com câmeras no portão, uma loja de couro, três igrejas, um Alcoólicos Anônimos, um par de sapatos abandonados, e por pelo menos 38 papéis colados aos postes com as inscrições “Entupiu, não quebre”, “Lavo seu sofá” e “Trago seu amor de volta” — propagandas com promessas de calibres, suspeito, um pouco distintos.

Acabei numa pequena praça circular, onde o vento animava as folhas secas, que prosseguiam dando um espetáculo de cambalhotas suaves. Três velhos conversavam, ao redor de uma mesa de pedra com o desenho de um tabuleiro de xadrez, sobre o Kennedy imortalizado em bronze, todo riscado pelos hieróglifos das pichações e com visão panorâmica do parque. Uma moça pequena e seu bulldog de expressão plácida caminhavam a rota definida pelo concreto, ignorando a grama, íntima dos pés de outros dois garotos aprontando a fita para o slackline. Três crianças se balançavam no playground colorido em amarelo e azul, e seus responsáveis, que somavam quatro adultos, todos muito parecidos, conversavam nos bancos instalados nas imediações.

Quis, de uma vez só, aproximar-me dos velhos e contar-lhes as rugas que riscavam suas faces; da moça, para acariciar seu cão; dos garotos, para dizer que a grama se imiscuindo entre os seus dedos era uma imagem pura; das crianças e seus responsáveis, para lhes comunicar meu assombro simplesmente por eles serem. Mas cada um desses pensamentos foi engolido por uma consciência imensa, que transformou o meu querer em simulacro, distanciando-me da praça e de todos. Sempre o mesmo resquício de raciocínio desviando de todas as investidas do sentir, artificializando toda experiência e me fazendo duvidar de tudo o que pensei ter me atravessado. Voltei para casa de mãos vazias, porque a crônica, se existiu, ficou no instante.

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