Leito divino

“The embrace” (1917); Egon Schiele

Andavam apressados, ela e ele. De mãos dadas, percorriam as calçadas desviando habilmente dos transeuntes, refazendo um percurso que se inscrevera em suas mentes anos atrás e que juraram nunca mais repetir, comprometendo-se com sujeitos com quem já haviam quebrado o compromisso. Chegaram à porta gradeada e entraram sem cerimônia. Ele acertou tudo, ela pegou a chave; dirigiram-se ao mesmo número 12. Era como todo quarto de motel barato: a cama, criados-mudos, janela discreta. Mas não houve banalidade que amenizasse o choque de experimentar tanto tempo comprimido num só espaço.

Centro da cena, o colchão velho, amolecido pelo tempo. Colônias de ácaros o haviam derrotado em todas as superfícies e o padrão geométrico balonar que as revestia sobrevivia por pouco apenas em alguns quadrantes, ao passo que, em outros, a costura detalhada havia se perdido de vez. A espuma já escapava pelos rasgos na epiderme e as molas rangiam sensibilizadas pela ferrugem que lhes consumia. O lençol com elástico que cobria o colchão por certo tivera época gloriosa, moldando as mais diversas topografias, conforme o peso e a dança dos corpos dos que ali se deitaram. Agora, suas maiores proezas se restringiam a pinicar e movimentar-se de má vontade, ignorando a cadência particular à cada transa. Os travesseiros, a seu turno, conservavam a embaraçosa espessura de toalhas dobradas, além de acomodarem uma abundância de resíduos capilares de sujeitos diferentes. Das cobertas, o pó era o resíduo menos incômodo; certamente não o responsável pela viscosidade ao toque.

Entreolharam-se hesitantes, menos pelas circunstâncias pouco higiênicas, e mais pelo receio de que houvesse uma assimetria expressiva no tesão e que a afirmativa incondicional diante da situação fosse compreendida pelo outro como desespero. E era, mas todo desespero se deseja dissimulado.

No número 12, anos atrás, da cabeceira ao pé da cama, tinham descoberto que o mundo era imensidão. O longo regime de privação do corpo um do outro, por sua vez, lhes ensinara que não havia nada, além da memória daquele gozo violento no mormaço de uma tarde de domingo, que pudesse fazer as vezes de marca-passo para os seus corações, que se sentiam prematuramente prescritos. Agora, deitavam-se na velha cama e a lembrança escorria pelos lençóis, o fascínio recíproco pelo que tinham de mais indizível triunfava sobre o constrangimento do tempo.

No momento em que os corpos tocaram o tecido puído do colchão, dedos caminharam sem qualquer dúvida, dentes morderam lábios, carnes foram medidas pelas memórias táteis e línguas se infiltraram clandestinamente por todos os recantos possíveis, ratificando a hipótese de que há profundidades que são atingidas somente com carícias (se muito se perde entre um olhar e outro e ainda mais na conversão do sentir em palavras, a semântica do sexo é o mais perto que se chega do ente do outro). Ele e ela mantinham-se, assim, em meio a toda sordidez do espaço, num instante absoluto, construindo um prazer etéreo que não lhes deixava margem para dúvida: aquele era e sempre fora um leito divino.

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