Presságio musical da extinção de um sujeito

Você ouve a mesma música. Trinta e quatro vezes. Talvez menos — e depois ela continuou na sua cabeça por conta própria. Você produz um texto ruim, clichê atrás de de clichê, e tosse por hábito. Uma, duas vezes. Você olha intensamente para o nada, como se fosse interessante, porque queria ser interessante e queria que houvesse alguém para saber o quão interessante você é e não o quão interessante finge ser. Você engole em seco, porque sempre desvenda os próprios casos, sempre enxerga as próprias farsas.
Você sente pena de si mesmo. Você lembra que odeia quem sente pena de si mesmo. Você lembra que descobriu há muito tempo que se odiava e tudo bem. Você não liga na maior parte do tempo. Mas, às vezes, você liga e se sente clinicamente depressivo. Mas você não é clinicamente depressivo. Ninguém nunca te disse que você era clinicamente depressivo, porque você nunca iria numa clínica pra te dizerem que você é clinicamente depressivo.
Você se pergunta como extirpar a amargura se essa for a composição fundamental da sua carne. Você se pergunta como curar-se quando cada grão da sua alma não é nada além de pesar, quando a única linguagem que lhe é franqueada é a da sombra de um eu. Você não está dentro nem fora do mundo. Nem na calçada, nem na rua, nem na palavra.
Você está em cada linha imaginária, ocupando o meio fio de um espaço mudo. Mudo não. Toca uma música no fundo — a mesma música.
E você sabe bem que vem se desfazendo, que vem perdendo muito mais do que pode se dar ao luxo.