Desempenho Acústico de fachadas — Critério Mínimo de Desempenho

Harmonia
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Oct 31 · 8 min read

Até julho de 2013, no Brasil, existiam pouquíssimos parâmetros que permitissem avaliar a qualidade dos edifícios habitacionais. Foi somente nesta data, após aproximadamente uma década de discussões entre o meio técnico e os diversos setores da construção, que a atualmente conhecida como “Norma de desempenho” entrou em vigor*. Esta norma técnica brasileira, publicada pela ABNT, apresenta diversos critérios mínimos de desempenho, abrangendo desde quesitos estruturais até os mais conceituais, como vida útil.

Felizmente, para o bem-estar e a saúde dos cidadãos que moram ou pretendem morar em apartamentos, também a disciplina de acústica é contemplada nesta norma. Desde a sua publicação, vem acontecendo uma revolução na área: a preocupação das construtoras com o atendimento aos critérios de desempenho acústico vem se intensificando ao longo desses seis anos. Nessa maré, vêm junto as pesquisas para o desenvolvimento de novos materiais, a produção de componentes com maiores potenciais de desempenho, a necessidade de caracterização acústica dos novos produtos e a qualificação dos projetistas, consultores e demais prestadores de serviços da área. O mercado da acústica cresce a olhos vistos. A Harmonia, com 25 anos de estrada, multiplicou por cinco o número de colaboradores, entre 2013 e 2018.

Mas nada é tão simples quanto pode parecer. Os critérios de acústica estão entre os que mais geram polêmicas, talvez por serem dos mais difíceis de se compreender. Vamos tentar explicar aqui um dos quesitos acústicos mais confusos e frágeis: o desempenho acústico de fachadas de dormitórios.

A primeira dificuldade é entender por que a norma de desempenho apresenta três critérios mínimos para isolamento de fachadas. Imagine que a fachada deve isolar parte do ruído externo para que o ruído no interior dos dormitórios seja adequado para o repouso. Mas o ruído externo à edificação pode ser mais ou menos intenso, dependendo do local em que o empreendimento vai ser construído. Assim, não seria justo que a norma apresentasse um critério único para este quesito. Se assim fosse, um empreendimento próximo de uma rodovia teria a mesma exigência que um outro rodeado apenas de ruas locais, com pouco tráfego de veículos, por exemplo. Nesse caso, teríamos uma de duas possíveis consequências: ou o primeiro edifício, aquele mais exposto ao ruído, teria um isolamento mais baixo do que o adequado para um dormitório, ou aquele localizado em uma área mais tranquila teria um isolamento superestimado, elevando o custo da obra desnecessariamente. Sim, porque para uma fachada isolar mais acusticamente, o projeto deve prever esquadrias de melhor qualidade, de preferência, com comprovação de sua isolação, realizada por laboratório especializado. Em geral, esquadrias com maior desempenho acústico, tendem a ser mais caras.

Agora que entendemos o porquê de haver três critérios, como saber qual deles um determinado empreendimento deve atender? Cada um dos critérios é relacionado, na norma, a uma “classe de ruído” que, por sua vez, está relacionada à proximidade do empreendimento a “fontes de ruído intenso”, a saber:

Para empreendimentos Classe de ruído I, a exigência de isolamento é menor do que para empreendimentos Classe de ruído II ou III. Empreendimentos Classe III são os que devem ter fachadas com maior isolamento acústico, de acordo com a norma.

Mas esta explicação não responde à pergunta anterior, apenas a modifica: como saber em qual Classe de ruído um determinado empreendimento se encontra, para então conhecer o critério a ser atendido? O que significa estar próximo ou distante de fontes de ruído? A resposta é subjetiva e permite, por exemplo, que empreendimentos instalados no mesmo local, sejam determinados em Classes diferentes, quando a análise é feita por diferentes consultores, dependendo do procedimento seguido. Por exemplo, pode-se pensar em um empreendimento que será construído em um terreno próximo de uma via expressa. Se o especialista considerar apenas essa proximidade, de forma subjetiva, a conclusão será, provavelmente, que o empreendimento está em Classe III. Para o mesmo caso, se o consultor considerar medições de ruído realizadas nesta via, ainda assim a conclusão poderia ser subjetiva, pois a norma não indica valores de referência para se determinar a Classe.

A fim de tentar homogeneizar os procedimentos e tornar objetiva a determinação da Classe de ruído de uma edificação, a Associação Brasileira para Qualidade Acústica — ProAcústica publicou, em abril de 2017, um manual em que são apresentadas sugestões de boas práticas, com o intuito de orientar consultores e projetistas. Este manual foi elaborado com a colaboração de um grupo de especialistas em acústica, com experiência neste assunto. A tabela a seguir, mostra as Classes de Ruído associadas a faixas de níveis de pressão sonora incidentes nas fachadas, conforme apresentado no Manual da ProAcústica.

Voltando ao exemplo do consultor que realizaria medições de ruído na via mais ruidosa próxima ao terreno: se os resultados obtidos das medições fossem diretamente comparados com os valores da tabela, a Classe de ruído poderia ser superestimada, uma vez que ele não estaria considerando obstáculos, topografia, distância da via às fachadas, posicionamento das janelas dos dormitórios entre outros fatores que influenciam nos níveis de ruído que atingem o edifício.

Para apresentar um exemplo numérico, suponhamos que o ruído medido na calçada da via mais movimentada, próxima ao terreno, tenha sido 68dB. De acordo com a tabela da ProAcústica, esse empreendimento estaria na Classe III. Contudo, considerando os fatores ora relacionados, que atenuam o ruído em seu caminho de propagação, é bem possível que o nível na fachada do edifício fique abaixo de 65dB, o que o colocaria em Classe II.

O procedimento seguido pela Harmonia, baseado naquele sugerido pelo manual, contempla:

a) análise detalhada do entorno do empreendimento, incluindo topografia, proximidade de linhas ferroviárias ou rotas de aeronaves e identificação das principais vias de tráfego;

b) medição dos níveis de ruído das fontes previamente identificadas, principalmente, dos sistemas de transporte (ruído de tráfego urbano, rodoviário, ferroviário e aeroviário);

c) conhecimento da implantação, volumetria e planta tipo da edificação estudada;

d) simulação de propagação sonora em software reconhecido, no qual é feita a modelagem do empreendimento e seu entorno, considerando os dados e informações apresentados nos itens a), b) e c).

e) determinação dos maiores valores de níveis de pressão sonora incidentes nas fachadas. Com estes valores, verifica(m)-se a(s) Classe(s) de ruído, consultando-se a tabela do manual.

Os programas de simulação são ferramentas valiosas para esse tipo de estudo, uma vez que permitem a previsão dos níveis de ruído que atingirão as fachadas do edifício que ainda está em projeto. Ou seja, esse tipo de ferramenta não apenas torna possível a determinação da classe de ruído e, consequentemente, do isolamento mínimo que a fachada deverá apresentar, de acordo com a norma de desempenho, como também permite que se tomem outras medidas que visem a mitigação do ruído no interior da edificação, sem elevar o custo do projeto, considerando apenas o preço das esquadrias. Para ilustrar, podemos pensar em um estudo em que se verifica que o maior nível de pressão sonora equivalente ponderado em A (LAeq), que atinge a fachada de um dormitório, seja 66dB. Neste caso, seguindo as orientações do manual da ProAcústica, a edificação é determinada como Classe III. Contudo, e se tentássemos modificar um pouco a implantação? Será que se a edificação for deslocada para o lado oposto da principal via de tráfego, por alguns metros, ou mesmo se a edificação fosse “girada”, não se conseguiria uma redução significativa no nível incidente na fachada dos dormitórios? O software de simulação flexibiliza esse tipo de análise.

Agora, como considerar “fontes de quaisquer naturezas” conforme os termos da norma de desempenho? Em geral, é muito difícil e até impossível que se conheçam todas as fontes fixas existentes nas proximidades da edificação. Muitas vezes, mesmo que se saiba da existência de uma ou outra fonte, é inviável caracterizá-las. Por exemplo, como caracterizar equipamentos de ar condicionado no topo de um prédio vizinho ou um sistema de exaustão de um restaurante próximo, cujos ruídos podem impactar nas fachadas do empreendimento em análise? O acesso próximo aos equipamentos não seria possível e condições de funcionamento da máquina seriam desconhecidos, tornando esta caracterização muito difícil. A saída é recorrer à legislação que trata do assunto, que limita a emissão de ruído para estabelecimentos e demais fontes a um determinado nível sonoro. Desta forma, entre o valor limite dado pela legislação e o maior nível que atingirá as fachadas do empreendimento (determinado por simulação), escolhe-se o maior para a determinação da Classe de Ruído.

Figura: Níveis de pressão sonora equivalentes, em dB, ponderados em A, incidentes nas fachadas, calculados por programa de simulação — acima, considerando recuo de 5,5m do edifício em relação ao limite do terreno; abaixo, considerando recuo de 10,5m.

Para finalizar, é válido lembrar, também, que a norma diz que para habitações próximas de aeroportos, estádios, locais de eventos esportivos etc. devem ser realizados estudos específicos. Qualquer Estudo de Classe de Ruído que seguir o procedimento ora apresentado pode ser considerado um estudo específico. Sendo assim, não é necessário se preocupar com esta observação da norma.

O desempenho das fachadas dos dormitórios, assim como os demais critérios de acústica, deve ser analisado em projeto. Com um bom Estudo de Classe de Ruído, realizado em fase preliminar, o construtor tem a oportunidade de uma escolha adequada das esquadrias, aliando um custo justo para a obra ao atendimento da norma de desempenho, quando a edificação estiver pronta.


*ABNT NBR 15575:2013 — Edificações Habitacionais-Desempenho, composta por 6 partes, atualmente em revisão


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