Requisitos de isolamento acústico na América do Sul

Como está o panorama para edificações habitacionais, escolas, hospitais e escritórios?

Harmonia
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Aug 7 · 6 min read

O fato de que o ruído afeta a nossa saúde é reconhecido há muito tempo por muitos pesquisadores e pela Organização Mundial de Saúde em diferentes documentos. Para garantir que os cidadãos estejam devidamente protegidos contra o ruído, as autoridades vêm desenvolvendo diferentes regulamentações em função do tipo específico de ruído a ser controlado: seja ele ruído ambiental, ocupacional, ou nas edificações.
Em geral, estas regulamentações incluem, na maioria dos casos, requisitos relativos ao isolamento a ruído aéreo, a ruído de impacto e de fachada. Em alguns casos, também são incluídos requisitos de níveis de pressão sonora de imissão e outros requisitos acústicos relacionados ao ruído de instalações prediais e/ou tempo de reverberação em áreas comuns da edificação.

Na Europa, vários estudos comparativos dos requisitos de isolamento acústico em diferentes países foram realizados ao longo da última década. Mais recentemente, em 2016, foi realizado um estudo piloto comparando os requisitos de acústica para edificações educacionais e escolas em países selecionados da Europa e da América do Sul. Este estudo incluiu cinco países europeus (Áustria, Bélgica, República Checa,Dinamarca e Espanha) e três países sul-americanos (Argentina, Brasil e Chile) que foram selecionados de acordo com dois princípios fundamentais: a) existência de regulamentação; b) interesse e motivação para discutir tais regulamentações e aplicar normas ISO. Nesse estudo foi constatado que existem grandes diferenças entre os requisitos dos países europeus e do Sul , e até mesmo dentro de cada uma dessas regiões selecionadas.

A situação relativa à regulamentação da acústica de edificações na América do Sul ainda é bastante desconhecida e, para dar visibilidade e gerar debate sobre o tema, o estudo piloto foi ampliado para os 10 países da América do Sul, também considerando outros tipos de edifícios como escolas, hospitais e escritórios. A seguir, questões mais relevantes sobre o status da regulamentação acústica em edificações nestes países selecionados é resumida.

A relevância do mercado da construção na América do sul

Para se ter uma ideia aproximada do potencial do desenvolvimento de regulamentações de acústica para edificações na América do Sul, alguns dados demográficos e geográficos estão resumidos na tabela abaixo para os 10 países selecionados no estudo. Também são apresentados dados adicionais tais como o número de edificações residenciais e a porcentagem de população vivendo em áreas urbanas , uma vez que é principalmente no entorno urbano que o ruído é um grande problema.

Requisitos de isolamento acústico para edificações residenciais

Considerando estes 10 países, na maioria são utilizados três descritores diferentes para ruído aéreo (R’w, RA/R’A, DnT,w), e os requisitos variam entre 45 e 50 dB. Em alguns casos, o limite é fixado em SPLmax ou LAeq,T interno, o que dificulta ainda mais a comparação entre as normas existentes. Para o isolamento a ruído de impacto, são usados dois descritores diferentes (L’n,w, L’nT,w) e os requisitos variam entre 53 e 80 dB. As normas da Argentina, Brasil e Chile são tão diferentes entre si que é difícil fazer uma comparação entre elas. Por exemplo, na Argentina existem dois níveis de desempenho (Escala I e Escala II) para os requisitos de isolamento a ruído aéreo, de impacto e de fachada, e os valores variam em função do uso do edifício e do tipo de espaços geminados; no Brasil a norma traz três níveis de desempenho: Mínimo - obrigatório - (M), Intermediário (I) e Superior (S), e os requisitos variam de acordo com o tipo de espaços geminados, e no Chile, desde fevereiro de 2019, existem apenas requisitos mínimos para o isolamento acústico a ruído aéreo e de impacto, excluindo fachadas.

Requisitos de isolamento acústico para escolas

Assim como em edifícios residenciais, a ampla diversidade de descritores e requisitos de isolamento acústico dificulta uma comparação rigorosa entre os 10 países selecionados. No entanto, a situação para edificações educacionais parece um pouco pior do que para habitacionais, já que, apenas dois países (Argentina e Chile) apresentam requisitos de isolamento acústico. Surpreendentemente, para o isolamento a ruído aéreo, o nível de exigência da Argentina é menos rigoroso para escolas do que para edificações residenciais. Já no Chile, os valores são os mesmos. O Brasil não tem requisitos de isolamento acústico para edifícios educacionais, mas sim um valor máximo estrito de LAeq,T (em conjunto com os outros requisitos da norma ABNT NBR 10152:2017), demonstrando que existe uma preocupação com a qualidade acústica das escolas.

Requisitos de isolamento acústico para hospitais

Image by Oles kanebckuu

Para edificações hospitalares, a ampla diversidade de requisitos e descritores de isolamento acústico também é observada. Considerando os limites entre ambientes geminados, os requisitos da Argentina e do Chile são os mesmos que os de edificações residenciais. No Brasil, o valor limite de níveis de pressão sonora LAeq,T(em conjunto com os demais requisitos da ABNT NBR 10152:2017) para quartos de hospital é o mesmo que para as salas de aula. Na Colômbia, o valor limite é o mesmo aplicado a escolas e edificações habitacionais. Já no Equador, o SPLmax estabelecido é menor do que o de edificações residenciais e menor do que o de escolas, o que parece apontar o peso diferente que o silêncio tem nesses dois contextos diferentes.

Requisitos de isolamento acústico para escritórios

Image by Alex Kotliarskyi

Outro espaço onde os cidadãos passam uma parte importante das suas vidas é nos escritórios. Para estes espaços, admite-se que níveis mais altos de ruído são aceitáveis. Argentina, Colômbia e Chile mantêm as mesmas exigências das edificações residenciais. O Brasil permite um maior limite de LAeq,T em escritórios se comparado aos requisitos para escolas ou hospitais (+10 dB), padrão observado no Equador, onde o limite também é 10 dB maior do que o estabelecido para edificações residenciais.

Com base nesta pesquisa realizada na América do Sul, e em conversas com diferentes especialistas de acústica em todos os países considerados (exceto Venezuela), foram reunidas informações atualizadas sobre o status dos requisitos de isolamento acústico para tipos de edificações relevantes para as atividades diárias em um contexto urbano.

Em linhas gerais, neste estudo foi observado que:

  • Na maioria dos países, não só há uma falta de regulamentação de acústica de edificações, mas também uma falta de conhecimento entre os legisladores sobre o impacto social do ruído no interior dos edifícios.
  • Existem apenas três países (Argentina, Brasil e Chile) mais comprometidos com o desenvolvimento de requisitos de isolamento acústico em edificações. Entretanto, os requisitos nem sempre são normativos.
  • O impacto do ruído ambiental na sociedade é mais conhecido e, portanto, mais países desenvolveram normas de ruído ambiental. Quando não existe acústica de edifícios, muitas vezes a regulamentação de ruído ambiental inclui limites para os níveis máximos de pressão sonora no interior dos edifícios, em função da utilização do edifício.
  • Em geral, a ausência de regulamentação está diretamente relacionada com a falta de sensibilização e de ações mais concretas por parte da administração pública, bem como de consultores acústicos e/ou laboratórios de acústica, e da população em geral.

Este estudo foi apresentado como artigo no último Internoise 2019 em Madri, em parceria com as pesquisadoras Birgit Rasmussen e María Machimbarrena, e tem como objetivo contribuir para fomentar a cooperação entre países da America do Sul para que desenvolvam seus respectivos requisitos de acústica de edificações.

Leia o artigo completo aqui!

Carolina Monteiro

Ondas moldam o mundo

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Acoustics consultancy company | We believe that sound shapes the world | www.harmonia.global

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