Cicatriz

Segura ela aqui um pouquinho? Minha irmã a soltou e eu a peguei. A mão dela era tão pequena que a minha conseguia envolvê-la todinha. Estávamos em êxtase. Com apenas 11 meses ela já dava seus primeiros passos. Eu, orgulhosa. Ela, empoderada. Num piscar de olhos, ela se soltou. O barulho da cabeça dela no rodapé fez meu coração parar. E disparar assim que ela começou a chorar. Eu não podia olhar, sua testa estava ferida. Por que eu soltei a sua mão?

Passei dias revendo a cena na minha cabeça. Em que momento eu havia me distraído? Não foi culpa sua, ela se solta mesmo. Não adiantava, eu me sentia culpada. Ela havia acreditado em mim. Ao segurar na minha mão, ela confiou que eu iria protegê-la. Mas eu a desapontei. Enquanto as lágrimas rolavam pelo seu rosto, vi em seu olhar a expressão da decepção. Como você pôde deixar eu fazer um dodói desses? Ela nunca mais iria segurar na minha mão da mesma maneira. Naquele deslize, perdi sua confiança.

Eu não podia evitar que minha sobrinha tivesse feridas abertas, e isso me assustava. Ela começava a se lançar no mundo, e em um simples passo já havia aprendido que existir podia ser doído. Mas eu queria que ela passasse por essa vida sem nenhuma ferida. Eu queria que ela não chorasse de dor. Eu queria que ela segurasse apenas em mãos que a protegessem. Mas até eu, que a amava, havia permitido seu machucado acontecer. Eu era responsável pela sua primeira cicatriz.

Na sua testa ainda havia uma marca. Ela já estava firme e não precisava mais de ninguém segurando a sua mão. Sentada no chão, eu a observava andar de um lado para o outro da sala. Nós, adultos, nos entreolhávamos. E eu tinha a sensação de que nosso pensamento era o mesmo. Que alegria é tê-la aqui conosco. Foi quando ela tropeçou e caiu. Sozinha. Mais uma vez meu coração parou. E não disparou, não teve choro. Ela levantou como se nada tivesse acontecido e continuou a brincar. Ufa, não machucou. Então ela veio até mim e me deu um abraço. O mais espontâneo dos abraços. Foi assim que eu percebi que ela já havia curado a sua ferida. E aquele abraço, curou a minha. Ela confiava em mim de novo.