No colo da minha mãe

Dia desses eu achei uma pasta na minha estante, perdida no meio dos meus livros. Por alguns segundos eu tentei me lembrar. Que pasta é essa? Logo que a abri minha memória se iluminou. Era um presente da minha mãe. Ela havia feito um diário durante meses para me entregar no dia da minha partida. Resolvi sentar e ler. Eu não me recordava do conteúdo. Quando o ganhei, tinha tanta coisa na cabeça. Mudar de país, estudar fora, me separar de tudo o que eu conhecia.

Eu não sabia o que essa partida significava para a minha mãe. E lendo aquelas páginas eu pude sentir parte do seu sofrimento. Vontade de chorar, aperto, tristeza, faltasaudade. Palavras que permeiam um texto que foi escrito mais de um ano antes de eu me mudar. Vivemos a mesma separação, mas eu não senti a mesma coisa que ela havia sentido. Eu queria me lançar nessa aventura. E sei que ela daria tudo pra me ter ao seu lado, sempre.

A gente não lembra da primeira vez que nossas mães nos pegaram no colo. Mas elas com certeza lembram. Lembram da sensação intensa. De cada detalhe daquelas nossas primeiras horas de vida. Do misto de alegria e preocupação. E assim como eu não lembrava do diário, eu também não lembro do primeiro colo da minha mãe. Como foi voltar a ser envolvida por ela, agora em colo e não mais em útero? Imagino ele quentinho e aconchegante, com o coração explodindo de um bem estar que toma conta do corpo todo. Onde as peles se encostam, eu imagino um macio que acaricia. Imagino que caber inteira em seus braços é como descansar sabendo que tudo que preciso no mundo está ali.

A gente cresce, ganha independência e se descola, e os colos tornam-se mais raros. Colo de mãe é pra quando a gente não tá bem e precisa de um afago. É pra lá que a gente corre quando quer chorar. Quando quer reconhecer mais uma vez aquele sentimento poderoso do primeiro colo da mãe. Quando estava um oceano longe, por vezes desejei seu colo. Ela me deixou ir sabendo que não poderia me dá-lo. E era isso que fazia minha mãe sofrer.

Fazia tempo que a gente não passava um tempo a sós. Ali, tomando café, falamos sobre a vida, sobre o trabalho, demos risada. Mas naquele dia eu queria ir mais profundo. Reler aquele diário havia me deixado sensível e eu estava ávida pelos sentimentos mais primitivos. Então eu perguntei a ela. Se você pudesse reviver algum momento da sua vida, qual você escolheria? Eu gostaria de abraçar o meu pai mais uma vez… E você? Eu escolheria a primeira vez que você me pegou no colo, mãe.

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