O paletó cinza

Harolda
Harolda
Jul 10, 2017 · 2 min read

O telefone tocou. Era ela. Sonhei com você essa noite. Sonho bom? Tocou a campainha e era você, acompanhada de um rapaz da sua altura. Você estava com um vestido preto. Ele com um paletó cinza. Acho que vocês estavam indo para uma festa. Esse era o sonho da minha avó. Que eu chegasse de surpresa na sua casa para apresentar meu namorado. Ele era bonito? Não me lembro, querida. Mas você estava feliz, deu pra ver.

Depois de alguns anos solteira, as pessoas começam a se questionar. Por que será que ela ainda não arrumou alguém? É difícil ser inteira quando todos acham que você deveria ser metade, algo a ser completado. A vida a dois nos é imposta como verdade, como um objetivo a ser alcançado. E por vezes já me peguei pensando que estar sozinha é minha maior realização.

Já faz anos que meu avô se foi e minha avó vive sozinha. É provável que ela não queira que a solidão dela seja a minha solidão. Talvez ela se sinta incompleta e não entenda que eu estou inteira. Mas tem muitas coisas que ela entende.

Assim como eu, minha avó também viveu uma grande decepção amorosa na sua juventude. O amor da sua vida, com quem ela iria casar, a abandonou e casou com outra mulher. Ela nunca falava disso com ninguém. Mas no dia em que cheguei na sua casa, despedaçada, ela se abriu. Com lágrimas nos olhos, ouvi ela contar daquele amor que não foi. Ela sabia exatamente o que eu estava sentindo.

Ao desejar aquele paletó cinza, minha vó deseja minha felicidade. É a visão dela de felicidade, de completude. E eu não posso culpá-la por enxergar dessa maneira. A vida dela tinha sido assim e a minha também poderia. Substituir o fracasso de um amor por outra pessoa. Mas eu estava trilhando um outro caminho, um caminho meu comigo mesma, e ela ainda achava que era porque o moço no paletó cinza não tinha aparecido.

Cheguei na sua casa. Havíamos combinado de irmos juntos pra festa. Desculpa, estou um pouco atrasado. Me enrolei aqui. Sem problemas. Vou só terminar de me trocar. Fiquei na sala esperando. Eu já tinha estado ali diversas vezes, me era um lugar familiar. Ali, sentada, ouvi ele me chamar. Vem me ajudar a escolher um casaco. Tá frio lá fora, né? Tá um pouco, melhor levar. Entrei no seu quarto e ele segurava dois paletós. Um marrom e um cinza. Qual combina mais? Eu sorri pensando na minha avó. O cinza. Com certeza o cinza, eu respondi.

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