O tal do silêncio que reverbera entre nós

Eu sabia que ele não iria mais olhar na minha cara. Depois do que tinha acontecido, o que havia entre nós estava acabado e eu não podia fazer mais nada. Será que eu falo alguma coisa? Melhor não. Mais cedo ou mais tarde ele vai superar. Era o fim de uma amizade. Se a gente se cruzar algum dia, capaz até de ele atravessar a rua, pensei.
Estamos acostumadas a ouvir das nossas amigas, colegas, irmãs, mães conselhos pra nos sentirmos menos culpadas. Não se preocupe, você não deve nada a fulano. E assim guardamos nossas supostas dívidas e continuamos vivendo, como se aquela rachadura ali não fosse também nossa. Fulano que se vire, afinal eu já tenho as minhas tantas pra preencher… E nessas, vagamos com nossos vazios por aí ecoando no vazio do outro. Mas acontece que o silêncio toma conta e não deixa que mais nada ocupe aquele espaço incômodo que foi criado dentro da gente.
Eu já tinha pensado muito se deveria ou não escrever para ele e a conclusão era a de que não fazia sentido. Não cabia no nosso caso. Mas eu sentia que o vazio dele por vezes ainda ecoava em mim e me questionava. Será que falo algo? Foi numa dessas reflexões que eu peguei meu celular e fiquei ensaiando um texto que fizesse sentido. Que palavras poderiam preencher o tal silêncio que já habitava há semanas nossa rachadura?
Olhando pras minhas fissuras, revi muitas que poderiam ter sido preenchidas com alguma palavra e fiquei triste. Quantos silêncios eu havia guardado naquelas minhas rachaduras? Já estava habituada a tantas delas que nem me dava mais ao trabalho de tentar recheá-las. Foi então que eu senti falta daquela sensação farta de palavras dentro de mim e resolvi dar um basta. Será que um pedido de desculpas poderia amenizar aquilo que reverberava entre nós?
Escrevi. Desculpa se te magoei de alguma maneira. Me dói pensar que você talvez atravessasse a rua se a gente se cruzasse algum dia. Enviei. Sem esperar uma resposta de volta, me surpreendi quando o toque do celular quebrou o tal silêncio. Era ele, e eu logo soube que tinha feito a escolha certa apesar dos conselhos bem intencionados. Poxa, fico muito feliz que você tenha me mandado essa mensagem. Naquela troca de palavras de carinho, pudemos preencher nossas rachaduras até que não reverberasse mais nada. Antes de desligar, ele ainda se certificou de que o meu vazio estava completo e disse. Não se preocupe, já tá tudo bem entre nós. E eu atravessaria a rua sim, mas seria pra te cumprimentar.
