Quando ela seguiu nossos passos

Harolda
Harolda
Jul 27, 2017 · 3 min read
Photo by Ana Gabriel on Unsplash

Desembarcamos e fomos logo seguindo as placas para nossa conexão. O procedimento era claro: verificar o portão, trocar dinheiro, embarcar novamente. Foi quando chegamos à casa de câmbio que ela nos abordou. Vocês podem me ajudar? Eu não falo espanhol. Logo nos prontificamos, mas mantivemos um certo distanciamento. Éramos jovens, ela aparentava ter a idade da minha mãe. Eu nunca viajei sozinha pra outro país. Era pro meu marido estar comigo mas ele ficou preso no trabalho. Olhei pra minha amiga e percebi que pensávamos a mesma coisa. Assim que ela trocar o dinheiro, precisamos despistá-la.

Entrei no avião sozinha, minha amiga embarcou em outro voo. Por acaso era o mesmo voo da mulher que seguiu nossos passos no aeroporto. Sentaram perto, conversaram durante quase todo o trajeto. Quando nos encontramos em Cartagena, ela me disse que haviam trocado telefone. Sério que vamos chamá-la pra sair com a gente? Eu já tinha formado minha opinião sobre aquela mulher e ela definitivamente não seguia o perfil de companheira de viagem que eu desejava. Mas eu sabia que ela dificilmente faria novos contatos. Sozinha em um hotel sem falar uma só palavra de espanhol. Foi então que, com muito custo, resolvemos convidá-la pra sair conosco. Ela negou, disse que estava cansada da viagem. Ela também estava questionando se éramos boas companhias?

No dia seguinte, o albergue em que estávamos faria uma festa em um barco em alto mar. Ela topou ir conosco e um bando de jovens de todos os cantos do mundo. Ali, conversei com ela pela primeira vez e não me surpreendi. Ela era exatamente como eu previa. Conversa superficial, risada estridente, biquíni minúsculo. Saí em busca de me conectar com outras pessoas.

Era cedo e acabamos cruzando sem querer com ela na cidade amuralhada. Estava fazendo compras, nós estávamos descobrindo a arquitetura local. Vocês vão pra Playa Blanca? Fizemos as contas e vimos que seria uma boa economia ter uma pessoa a mais pra dividir o táxi. Então lá estávamos nós três, dividindo a sombra e a piña colada na praia mais bonita em que eu já havia estado. Em meio àquele clima paradisíaco, comecei a enxergá-la de uma outra maneira. Conversamos sobre o câncer que ela havia vencido duas vezes, seu gosto por acampar e escalar, sua coragem em pegar aquele voo sozinha. Será que ela tem mesmo a idade da minha mãe? Ainda surpresa, desconfiei que fosse mais nova apesar das rugas em seu rosto.

Era nosso último dia em Cartagena e eu estava começando a me despedir daquela cidade quente e charmosa. Escolhemos um dos melhores restaurantes pra jantar e fizemos questão de convidar nossa nova companheira de viagem para ir conosco. Afinal, havíamos passado bons momentos juntas e eu estava contente em ter descoberto novas camadas daquela mulher que me parecia cada vez mais interessante. Até sua postura acomodada falando em português com o garçom não me incomodava mais. Entre um prato e outro, ela continuava nos entretendo com seus relatos surpreendentes e eu já olhava pra ela com admiração. Queria envelhecer assim.

Chegou a sobremesa e ela começou a narrar aquela última história. Não me lembro do doce comi, mas ainda guardo a sensação amarga que tive ao ouvir aquelas palavras. Eu nunca tinha presenciado um relato tão real e doído sobre um abuso sexual. Ali estava eu, segurando as lágrimas com um nó no peito que não parava de crescer. Ela sabia que essa seria nossa reação e mesmo assim continuou narrando cada detalhe. Não era sua intenção nos deixar assustadas. Aquele episódio tinha acontecido com um namorado quando ela tinha nossa idade e, para ela, compartilhar conosco era o que estava a seu alcance para nos manter alertas. Ela não queria que a gente seguisse seus passos. Mas eu estava grata que ela havia seguido os nossos desde o aeroporto. Que bom que não conseguimos despistá-la.

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