A mesa

Ou carta para o escritor que em 2014 me deixou sua mesa de presente.

Tenha à mão uma flanela limpa. Caso escreva em uma mesa de madeira, mantenha o óleo hidratante sempre por perto. Na ausência de óleo ou se por acaso o leitor usar outro aparato para escrever, água deve bastar para eliminar a sujeira antes da escrita. Faça o mesmo com as ferramentas de composição escolhidos: limpe o computador ou caderno das cracas acumuladas, escolha uma folha de rascunho nova, passe o olho nas notas e se certifique que há tinta nas canetas coloridas; caso você fume, esvazie o cinzeiro, lave-o, seque-o com a flanela — repita a operação quantas vezes forem necessárias durante a criação. Mantenha o material de consulta por perto; tenha à mão suas marcações ou excertos de livros, páginas de revista ou da internet, imagens colhidas por aí. Tenha também sempre um copo, uma taça ou uma caneca à mesa, não importa o que você bebe <<< importa que você beba >>> água fresca, chá, café ou conhaque, ou os últimos dois juntos: mantenha o caminho livre para as sensações.

O importante é que a mesa esteja pronta para receber as paisagens da escrita por vir — à mesa tudo é móvel, ainda que as pernas estejam bem cravadas no chão: cabem as escolhas e a movimentação de um escritor a cada dedilhada no teclado ou risco abandonado no papel, conforme manuseia suas ferramentas, destroça notas, dobra folhas, adiciona e subtrai, se reserva. O que não quer dizer que à mesa não existam cavidades para permanências: uma mesa pode qualquer coisa, inclusive tornar-se um objeto e só um objeto de canto em que se tromba, se esfola o joelho ou a unha do dedão.

A mesa é um inconveniente por seus silêncios, no sono, ao lado da cama ou no divagar de uma tarde no escritório. Também no estalido da madeira que convoca o marceneiro, as tardes gastas no lixar, na disposição da panela quente e pesada sobre ela, o café e o queijo a observar o correr dos dias. Ela comporta toda a vibração de um corpo que age sobre ela. É uma presença fantasmática, aterradora às vezes. A mesa é um risco, apavora o escritor.