Correspondência I
Amore, como vai?
Escrevo tomado por uma vontade de estar contigo e também com todo mundo. Tento me privar do cochico ao pé do ouvido, da pasta de cartas, para tornar públicas as palavras selecionadas para o afago — tem muito mais gente precisando, não só você.
Por aqui voltamos aos dias agitados com a votação da PEC 241. Aconteceu ontem com alguma mobilização social — houve, mas não fez nem cócegas. Alguns grupos foram ao Congresso protestar; um grupo de estudantes organizados pela UNE ocupou o escritório da Presidência em São Paulo, no Twitter colocaram a tag #PecDoFimDoMundo no topo dos assuntos mundiais comentados, no Facebook, nem a mobilização dos globais e estreletes segurou a avalanche. Às 22h tínhamos o resultado da votação. Se a misoginia marcou a votação que afastou Dilma em março, as falas de ontem pareciam todas cobertas pelo véu da desfaçatez de quem bem sabe o que está fazendo e suas consequências: a emenda passou no primeiro turno com 366 votos favoráveis.
Os capixabas votaram blocados, mesmo com oposição de setores do partidos, como a juventude do PSB de Foletto, tendo se posicionado contra o partido, por exemplo. Helder e Givaldo se livraram da vergonha — o PT orientou voto contrário. Vidigal e Max da Mata não votaram pois estão licensiado para as eleições municipais. Sobre o primeiro não vi notícias, apesar do PDT ter votado contrário a emenda, o segundo posou ao lado de Temer e Marcela no banquete oferecido aos deputados pela presidência no Alvorada bem na véspera da votação. Gastamos R$100 mil com o bufet elogiadíssimo pelos presentes, bem diferente das festas do governo passado, segundo o Estadão. Show de horrores total, das mesas bem postas que gostaríamos de ter no futuro ao discurso inflamado de Temer, “estamos salvando o Brasil.” Já na sexta, a Folha exibia propaganda do Instituto Empiricus no topo do portal, “Se você é contra o teto dos gastos públicos você é contra o Brasil”, qualquer semelhança com o mote fascista que sim, também ajudou a embalar a corrida pela tri no México, não é mera coincidência. Como você bem sabe, estamos bem de comunicadores e marketeiros na Novíssima República. Para adoçar um coração tupiniquim basta o ruído de uma continência, essa impressão parece persistir desde o primeiro turno das eleições. Colunistas, repórteres e editores podem enriquecer o relato no futuro, quando o tempo — e a idade — tiverem esmaecido o fato, deixando o mea-culpa expulsá-lo da gaveta desbotado feito a fotografia da Copa de 70 que minha família não tem, mas sei que alguém, por aí, deve encontrar. Ou não. Vivemos sob o manto do cinismo e ele parece tão literal quanto a capa da invisibilidade que tanto desejamos durante a adolescência e mesmo nos dias ruins. Apesar de literal, passa desapercebido. Colocando na ponta do lápis o sabido, os golpistas dividem-se entre os palanques de Luciano e Amaro. Vamos descobrir brevemente onde o PT vai cair. Gostaria de saber como vamos proceder. A situação anda feíssima por aqui.
Recebo suas palavras, fotografias e vídeos com o coração apertado. Migrar não é fácil. Você descobre agora vivamente (porque sim, a tristeza e o desconforto fazem parte), aos 30 (já com alguma coisa experimentada, algumas certezas e negações consolidadas pelo 10 anos de liberdades). Inúmeras vezes disse das dificuldades aparentemente intransponíveis encontradas quando cheguei ao Espírito Santo — enfatizo mais uma vez, não vim por vontade própria. É importante diferenciar, ainda que você não deva tratar dessa questão em termos comparativos, pois não se trata de uma disputa. Você partiu porque sentiu-se compelido a partir, algo lhe puxava, vontade de vista, de mundo, de outra coisa que não você e as relações constituídas. Sua coragem de (fugir?) é mais que legítima, ela é compartilhada, ela parece ser sentida não só por você. Eu não quero mais, Lori também deve zarpar, pelo menos do estado — afinal, sobraram as incertezas mais sombrias: a pobreza, o ufanismo, o tombo e a morte; e uma única certeza: a necessidade de tornar-se estrangeiro onde é que estejamos, não para acumular créditos entre os nativos, como costumamos fazer com aqueles que chegam, mas para reaprender a falar, para se perder nas cidades escolhidas, e com o hibridismo do lugar primeiro e do novo espaço em que escolhemos viver, fazer língua nova, tátil e gaguejante, você bem sabe pelas leituras e palavras compartilhadas que, a mim, parece o mesmo que fazer amigos.
Você bem sabe da dificuldade que é ser estrangeiro em sua própria língua. Você tem vivido assim por toda a vida — o macho e nossa sexualidade, o veganismo e o cuidado, o indigenismo e o traçado da diferença apontado pela antropologia e pela educação, o habitar na pequenez de nossas cidades e de nossos desejos. Não me cabem outras considerações sobre isso. Você bem sabe, agora, o que tem sido levar essa pequenez a uma potência nova: a pele esvaziada de contato e afirmação, o descobrir-se maioria no vento de possibilidades descampadas e ainda assim conseguir explorar toda pequenez no cheiro de peixe do restaurante que sei, você jamais teria escolhido trabalhar, o retornar ao armário que lhe foi tão óbvio explodir ainda na infância, o colocar-se de forma pedagógica neste outro lugar, que agora é um experiência nova com os sul-americanos, asiáticos e africanos que tiveram e continuam tendo muito menos do que lhes deve parecer possível. E sim, com os europeus que lhe parecem — ou são de fato — com a sua brasilidade austro-italiana. Contei algumas vezes o quanto foi importante para mim fazer amigos em Vitória. Foi a transversal possível num momento em que acumulava diários cobertos de lamentos tristes e gozos engolidos. Eles trouxeram alegria, me ajudar a habitar a cidade, descobri-la e, inevitavelmente, a me descobrir tendo a cidade e as pessoas como atravessamentos.

Pode parecer besteira, mas a amizade pode fazer os fantasmas se materializarem, meu amor. Não as paranois que insistimos chamar de fantasmas, falo das presenças fantasmáticas, os borrões de luz que vimos pelo canto dos olhos atravessar a sala, de noite, quando estamos sozinhos, e desaparecem do nada. Você se lembra de uma correspondência do jovem Pasolini descrita pelo Didi-Huberman no “Sobrevivência dos Vaga-Lumes”? Ao longe, bêbado e nu, Pasolini viu os projetores fascistas no horizonte, na noite em que também viu uma revoada de vaga-lumes, na mesma noite em que dançou embriagado com os amigos? A carta é de uma imensa alegria, de uma imensa fé na vida, de uma enorme confiança em si e na companhia do outro. Vamos combinar que trato com um jovem senhor de 31 anos, e não com aquele Pasolini esmaecido pelos múltiplos ataques sofridos. Não perca as esperanças do dia, nem das caminhadas, nem de toda a novidade que se desenrola com a insegurança, com o tornar-se ainda menor nessa fuga. Eu estou por aqui e também temo, de alguma forma, o perder qualquer coisa, você incluso nesse caminho de milhares de milhas que precisarei atravessar pra viver novamente contigo. Prefiro não desanimar, mesmo sabendo que viver neste sertão anda muitíssimo perigoso.
Amo muito você,
H.