
Fluidez
Enquanto preparava o chá de camomila com mel, deixava sua mente fluir. Pescou um dos pensamentos. Por que é que a medida que vamos envelhecendo, vamos sentindo que nunca mais sentiremos uma faísca que seja por alguém?
Você sabe. Aquela inquietação que é gostar de alguém, uma incerteza boa, pois lá no fundo você imagina que a pessoa também sinta a mesma inquietude em relação à você. E vocês dois querem se conhecer, aos poucos, sozinhos. Quase como se fossem adolescentes. Quando tudo é erótico e ao mesmo tempo gracioso, inocente, curioso.
Onde na cama não havia medo de experimentar nada. Mas não havia pressa também. Até parecia que tudo corria em câmera lenta, o tempo deixava de ser importante. Por alguns instantes, mal se sabia a idade de ambos. Havia a curiosidade sobre os gostos de cada um, às vezes batia, às vezes não e estava tudo bem.
Mas parece que não dá para ser assim. Não mais.
Coisas como a insegurança sobre si mesma a percorria diariamente. As incertezas sobre tudo o que a rodeava eram maiores do que os sentimentos sinceros que poderia ter por alguém. Se achava estragada demais agora, queria se recuperar, se redescobrir. Não se sentir um fardo e nem sentir que o outro seja isso também. Porém, ao mesmo tempo sabia que a sua atração pelo outro não estava mais sendo baseada na curiosidade em conhecê-lo no seu ritmo, em experimentar cada parte dele. Mas sim na ansiedade em ter alguém por perto, em não ficar sozinha, em se comparar constantemente com outras pessoas. E o pouco que conhecia esse alguém, sentia logo de cara que ele não possui tal conexão com ela. Porém insistia um pouco mais, o suficiente até ficar fadado ao fracasso. Não parecia valer mesmo a pena. Mas questiona-se também se essa sensação de borboletas no estômago benignas por alguém novo ainda exista dentro de si ou se já estão extintas. Talvez porque isso servia como “indicador de pessoas cuja conexão combina com a minha”. E isso, ela sentia, era bem raro de se encontrar.
Sentia falta de sentir-se nova com alguém.
