Dor de Véio

Haunyed
Haunyed
Aug 25, 2017 · 3 min read

Virando novamente, procurando uma posição confortável para reencontrar o sono, está o Véio na cama em mais uma noite fria de inverno. Em vão ele tenta, se esforça, mas o sono era esguio e tinha fugido. Com o tempo vem a velhice e com ela se aprende que o frio dói. Sente dores nas juntas do corpo, nada para lhe tirar o sono, mas as mãos, essas sim, são as que lhe afugentam o sono.

A dor também tira a paz, e sem paz vem a frustração. Levantar da quente cama numa noites dessas? Aquele frio que gela a alma, fez o Véio bufar de raiva. Dentro dos cobertores tentou de tudo que era jeito aquecer aquelas mãos, mas tudo em vão, a dor só agrava e amanhã o dia era cheio. Certo que os bebedouros estariam congelados pelo frio. Tudo no sítio do Véio era braçal, coisas modernas? Não tinha condição financeira e muito menos intelectual, era à moda antiga que no sítio se faziam as coisas, no braço.

O Véio procurava coragem pra enfrentar a noite gelada, abre os olhos e na penumbra vê a cama vazia, vazia demais, pensou ele. Mudou o rumo do pensamento, desgraça era pouca. Ainda deitado, levanta uma das mãos, solta um chiado de dor quando ela encontra o frio do quarto, a posiciona onde consegue vê-la e a encarando duramente, xinga com vigor.

Levantou enfim, rápido, apesar da idade conservara a agilidade, culpa das necessidades que se têm ao viver no campo. Quando finalizava uma coisa, vinham outras mais, e a cavalo, para serem feitas também. Alimentou o fogão a lenha com gravetos menores, assim aqueceria a chaleira em menos tempo. Gravetos menores são menos resistentes, mas queimam com intensidade, diferentes das lenhas mais grossas que se utilizam nas longas noites.

Aguardando a água aquecer, pegou uma bacia na estante próxima ao fogão, sentiu um calafrio, um vento escapara à proteção do casaco e lhe fez tremer o corpo e bater o queixo. Sacudiu o corpo para espantar a sensação, durante os movimentos, um braço mais desajeitado esbarrou na estante e derrubou um objeto.

O carrinho azul caído ao chão foi iluminado pelas luzes criadas pelas chamas, que por entre as frestas do fogão escapavam. O brinquedo tinha o poder de acender várias memórias.

Recolhe o carrinho com delicadeza e o devolve ao seu devido lugar, mas não antes de verificar e limpar o brinquedo. Prepara a bacia para mergulhar as mãos. Lembra que Isaura já havia preparado um par de vezes, a mesma bacia. Época em que os pés sofriam por trabalharem sem parar. Onerosos eram os remédios.

Isaura sim tinha boas mãos não como as do Véio.

As mãos do Véio são de juntas grossas, refletem os trabalhos do campo. Cicatrizes de levantar cercas, as unhas sujas de terra, eram encardidas e ásperas. Sim, muitos ásperas ao contrário das mãos suaves de Isaura, aquilo sim era um belo par de mãos. A quentura da água pouco a pouco, diminuem as dores.

Vida de rei!!!, suspirando ele em alívio.

Vem lhe ao rosto sério um projeto de sorriso, porque Isaura sempre lhe chamava de véio bobo, ao falar que tinha vida de rei. Adiciona um pouco mais de água quente, mais suspiros, e o frio ficou mais suportável.

O Véio ficou sério, carrancudo encarou o brinquedo azul na estante, lembrou do guri brincando, naquela mesma sala vazia e escura, mas na lembrança era iluminada e cheia de alegria. O rosto do Véio agora era triste e apático. Isaura nunca superou a perda do filho, como pudera se vivia por aquele guri, e no final da doença dele, o Véio não sabia quem dos dois estava mais doentes.
Sanaram as dores das mãos, de volta a cama novamente estava protegido utilizando os cobertores como escudo quente. Cobria quase tudo, só o rosto que ficava descoberto, o rosto queimado do frio, vermelho. As mão agora o deixariam dormir, se não fosse pela saudade de Isaura acharia o sono fujão e quem sabe sonhar.

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