[ANÁLISE] Como parar o trem da história?

Walter Benjamin e o materialista histórico brasileiro.

“O passado leva consigo um índice secreto pelo qual ele é remetido à redenção. Não nos afaga, pois, levemente um sopro de ar que envolveu os que nos precederam? Não ressoa nas vozes a que damos ouvido um eco das que estão, agora, caladas? E as mulheres que cortejamos não têm irmãs que jamais conheceram? Se assim assim é, um encontro secreto está então marcado entre as gerações passadas e a nossa. Então fomos esperados sobre a terra. Então nos foi dada, assim como a cada geração que nos precedeu, uma fraca força messiânica, à qual o passado tem pretensão. Essa pretensão não pode ser descartada sem custo. O materialista histórico sabe disso.” (LÖWY, Michael. Walter Benjamin: Aviso de Incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”, Tese II. Boitempo. 2005. p. 48)
“A luta de classes, que um historiador escolado em Marx tem sempre diante dos olhos, é uma luta pelas coisas brutas e materiais, sem as quais não há coisas finas e espirituais. Apesar disso, estas últimas estão presentes na luta de classes de outra maneira que a da representação de uma presa que toca ao vencedor. Elas estão vivas nessa luta como confiança, como coragem, como humor, como astúcia, como tenacidade, e elas retroagem ao fundo longínquo do tempo. Elas porão incessantemente em questão cada vitória que couber aos dominantes. Como flores que voltam suas corolas para o sol, assim o que foi aspira, por um secreto heliotropismo, a voltar-se para o sol que está se levantar no céu da história. Essa mudança, a mais imperceptível de todas, o materialista histórico tem que saber discernir.” (LÖWY, Michael. Walter Benjamin: Aviso de Incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”, Tese IV. Boitempo. 2005. p. 58)
“Articular o passado historicamente não significa conhecê-lo “tal como ele propriamente o foi”. Significa apoderar-se de uma lembrança tal como ela lampeja num instante de perigo. Importa ao materialismo histórico capturar uma imagem do passado como ela inesperadamente se coloca para o sujeito histórico no instante do perigo. O perigo ameaça tanto o conteúdo dado da tradição quanto os seus destinatários. Para ambos o perigo é único e o mesmo: deixar-se transformar em instrumento da classe dominante. Em cada época é preciso tentar arrancar a transmissão da tradição ao conformismo que está na iminência de subjugá-la. Pois o Messias não vem somente como redentor; ele vem como vencedor do Anticristo. O dom de atear ao passado a centelha da esperança pertence somente àquele historiador que está perpassado pela convicção de que também os mortos não estarão seguros diante do inimigo, se ele for vitorioso. E esse inimigo não cessa de vencer.” (LOWY, Michael. Walter Benjamin: Aviso de Incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”, Tese VI. Boitempo. 2005. pg. 65)
“(…) Com quem, afinal, propriamente o historiador do Historicismo se identifica efetivamente? A resposta é, inegavelmente, com o vencedor. Ora, os dominantes de turno são os herdeiros de todos os que, algum dia, venceram. A identificação afetiva com o vencedor ocorre, portanto, sempre em proveito dos vencedores de turno. Isso diz o suficiente para o materialismo histórico. Todo aquele que, até hoje, obteve a história, marcha junto no cortejo de triunfo que conduz aos dominantes de hoje [a marcharem] por cima dos que, hoje, jazem por terra.
A presa, como sempre de costume, é conduzida ao cortejo triunfante. Chamam-na bens culturais. Eles terão de contar, no materialismo histórico, com um observador distanciado, pois o que ele, com seu olhar, abarca como bens culturais atesta, sem exceção, uma proveniência que ele não pode considerar sem horror. Sua existência não se deve somente ao esforço dos grandes gênios, seus criadores, mas, também, à corveia sem nome de seus contemporâneos. Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie. E, assim como ele não está livre da barbárie, também não o está o processo de sua transmissão, transmissão na qual ele passou de um vencedor a outro. Por isso, o materialista histórico, na medida do possível, se afasta dessa transmissão. Ele considera como sua tarefa escovar a história à contrapelo.” (LOWY, Michael. Walter Benjamin: Aviso de Incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”, Tese VII. Boitempo. 2005. pg. 70)

[AVISO]: O texto abaixo foi desenvolvido para a avaliação da disciplina Filosofia da História I, na graduação de Filosofia da UFF. Peço, de antemão, perdão por quaisquer concepções que transcendam a obra teórica de Walter Benjamin que o texto possa vir a relacionar. O método avaliativo permitia ao estudante estimular a capacidade argumentativa e de inter-textualidade.

A construção de uma ou de várias narrativas para os movimentos políticos de esquerda é ferramenta essencial para a tentativa de desmantelamento do conjunto de poderes (econômicos, políticos, super-estruturais, etc.) da classe dominante. A história, portanto, tem ênfase central nessa tarefa. Seja como capacidade de rememoração ou como capacidade de criação de condições revolucionárias, esse objeto, inevitavelmente, padece sob uma dialética entre as classes dominantes e dominadas da estrutura social de classes, entre as vozes que ecoam e as vozes silenciadas.

Desse ponto de vista, o conjunto dos feitos que fazem parte da história da humanidade não podem ser somente a construção de uma narrativa linear universalizadora, uníssona, objetivada em torno do conceito de “progresso”, (seja lá o que esse conceito desastrou na subjetividade dos vivos entre as grandes guerras mundiais do século passado) e os grupos que possuírem a habilidade de manejá-la, de construírem a história, provocam direta ou indiretamente transformações sociais, ditando a história coletiva e a de si próprio.

As narrativas que dão conta do longo fenômeno de ascensão do sistema capitalista em seus diferentes germes, desde a fundação do Estado moderno, a Reforma Protestante, o colonialismo mercantil, o iluminismo e o desenvolvimento da ciência moderna, o liberalismo político e outros diversos fatores consolidam, em uma inter relação trans-histórica, a sociedade de classes capitalista, fornecendo descrições históricas das transformações sociais que colocam esse novo tipo de sociedade como singular em relação às anteriores. Essa nova estrutura social cria novas condições de vida, uma nova subjetividade humana e novas formas de relações sociais. O sujeito histórico desse momento, o proletariado, agora organizado socialmente enquanto classe social tal como os seus iguais, deslocado em massa para as cidades onde sofre um processo de esquecimento das antigas raízes e aculturação de suas novas, experimentador do spleen de Baudelaire, é possuidor da capacidade de, uma vez jogado no furacão de uma sociedade industrial, produzir narrativas que andem na marcha-ré da história dominante e à favor de seus interesses.

O sujeito histórico, para Lukács, é detentor da capacidade de promover mudanças qualitativas na sociedade. Tanto o “materialista-histórico” de Walter Benjamin quanto o sujeito histórico de Lukács, para serem efetivos em sua missão e não caírem nos mecanicismos da história, precisam da capacidade analítica de, ao examinarem os fenômenos, compreendê-los enquanto uma totalidade de relações e não desprendidos entre si. É a capacidade de entender, por exemplo, a relação entre a crise econômica internacional e a ascensão política da extrema direita nos países de Terceiro Mundo. A capacidade de se organizar enquanto movimentos e partidos perante os acontecimentos atuais sem cair em purismos teóricos de nenhum tipo, mas nem tão pouco agir sem orientação. A análise e a ação formam a unidade para a promoção de transformações históricas.

Certamente conseguir definir a orientação de toda a esquerda mundial não é a intenção desse trabalho. A importância se dá, de forma mais geral, na capacidade que as esquerdas possuem, mais especialmente no século XXI, de produzirem narrativas à contragosto da estrutura dominante. Capacidade essa de articulação dos símbolos de nosso inconsciente coletivo, de vasculhar nos anais da história brasileira a história dos vencidos, de rememorar os esquecidos brasis que moram aqui. Essa capacidade, portanto, se desdobra na possibilidade de criar contra-discursos, de articular a dialética da memória e do esquecimento em torno do interesse da classe trabalhadora, de produzir emancipação sem cair nas armadilhas narrativas do discurso dominante, como por exemplo, na criação de narrativas no seio da esquerda que ao combaterem o discurso dominante, reproduzem-no indiretamente.

É na luta de classes onde os vencidos da sociedade se configuram enquanto tal, mas também é somente por meio dela que, através sua teoria e prática, de seu espírito e matéria, que o sujeito histórico realiza-se coletivamente através de sua transformação e superação enquanto agente social. A consciência de classe do sujeito histórico, para tanto, além da capacidade analítica de entender as inter-relações da dinâmica capitalista mundial, necessita de meios para a produção e reprodução contínua de narrativas que fortaleçam os interesses daqueles que há séculos não são possuidores dos mecanismos de controle e domínio da sociedade.

Longe de esperar que um acontecimento divino, sem precedentes históricos, aconteça e emancipe à todos, o simbolismo do sol que raia, da dialética entre a escuridão e da luz, do passado e do presente, só pode ser efetuada pelas mãos daqueles que precisam de uma virada na história para se fazerem escritos nela, para se fazerem lembrados, perpetuados, uma vez que aqueles que vencem perpetuam seus valores para as gerações futuras e abrem a possibilidade de criarem o próprio paraíso na Terra.

Portanto, a luta (a ação), a análise, a rememoração das derrotas e das vitórias dos que até agora estão dados como “vencidos” são importantes para, em movimento perpétuo, prosseguirem na impulsão da criação das narrativas, através de ações dos sujeitos históricos que possibilitem a modificação das relações sociais. Parar o trem da história ou puxar os freios de emergência desse trem talvez seja a possibilidade que o sujeito histórico possua de intervir no curso do desenvolvimento do sistema capitalista mundial e de suas redes putrefatas.

Através do resgate das memórias daqueles que viveram o Brasil antes de nós, dos acontecimentos políticos que perfizeram a nossa formação nacional, da rememoração do processo de luta dos vencidos pela classe dominante é que será possível formar os alicerces da orientação para a ação transformadora. É preciso, portanto, analisar a dinâmica do capitalismo dependente do Brasil (e sua relação com os agentes econômicos externos), possuidor de características diferentes do capitalismo desenvolvido entre os séculos XVIII, XIX e XX da Europa.

O sistema capitalista dos países de terceiro mundo da América Latina, mais especialmente do Brasil, está inter-relacionado com os fenômenos sociais de sua região. A abolição às pressas de um regime escravista para a introdução do sistema capitalista meritocrático sem a modificação das condições básicas das camadas mais vulneráveis da sociedade, a falta de uma república federativa centralizada possuidora de projetos de desenvolvimento da infra-estrutura brasileira como um todo até a década de 30 e a disputa do conceito de “desenvolvimento” atrelado ao papel do Estado são cruciais para o entendimento das relações políticas brasileiras da atualidade.

No Brasil, o conceito de “desenvolvimento” foi amplamente disputado entre os projetos nacionais que vigoraram através das cadeiras presidenciais. Fazendo menção à diferentes narrativas para esse conceito — de Getúlio Vargas com a promoção de um Estado-nação centralizado no poder Executivo industrialmente auto-suficiente e garantidor de legislações protetivas aos trabalhadores, Kubitschek ainda com o plano de metas nacional e com a continuação, mesmo moderada, do projeto de desenvolvimento nacional, as distintas matizes econômicas (a partir de 64 o perfil do desenvolvimento econômico modifica-se durante o governo militar até o processo de abertura democrática) que perfizeram o papel do Estado como desenvolvedor econômico no período da ditadura militar, até, por fim dos que aqui ressalto, os governos do Partido dos Trabalhadores possuidores de um projeto neodesenvolvimentista, acochambrando as recomendações econômicas neoliberais de agentes externos com políticas de desenvolvimento social, o papel do Estado como transformador social no Brasil sempre foi essencial, independente da orientação ideológica dos chefes de governo.

Construir uma narrativa que atenda aos interesses da classe trabalhadora em um Brasil multiforme ainda é enfrentar o dilema da necessidade de auto-suficiência econômica e de promoção de políticas que visem a superação das desigualdades sociais presentes na estrutura dessa sociedade. É, portanto, ainda ter a necessidade de falar Estado como instrumento pelo qual se realizam transformações sociais. É possuir a capacidade de, na construção das narrativas, disputar o espaço público para estar à serviço da população brasileira em sua totalidade, em sua multiplicidade, e não apenas à serventia dos interesses de pequenos grupos vencedores. É, pois, criar as condições básicas para a felicidade na Terra, para o bem-estar social, sem que se repitam os erros das experiências políticas passadas e dos seus fracassos no manejo do aparato estatal. Tal como puxar o alarme de emergência no último segundo que antecede à batida do trem.

Bibliografia:

LOWY, Michael. Walter Benjamin: Aviso de Incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. Boitempo. 2005.

LUKÁCS, György. História e consciência de classe. Martins Fontes, 2ª ed. 2012.

BOSCHI, Renato; GAITÁN, Flavio. Intervencionismo estatal e políticas de desenvolvimento na América Latina. Caderno CRH, vol. 21, n. 53, p.305–322. 2008.

NUNES, Edson. A gramática política do Brasil: Clientelismo, Corporativismo e Insulamento Burocrático. 5ª ed. 2017.