À maternidade

Ontem me emocionei. De soluçar mesmo. Normalmente eu diria que é a Lua, ou qualquer outro fenômeno do gênero. Mas dessa vez foi algo especial, que nem que eu quisesse deixaria passar invisível. Estava rolando o feed quando apareceu um vídeo. Creio que você já tenha assistido. Viralizou. É um vídeo de vários partos, mostrando o momento único do primeiro encontro das mães com seus bebês (https://vimeo.com/217076961) . Sim, eu vim falar da maternidade. Por mais clichê que possa parecer, justamente nessa data. Comercial ou não, tocou aquele pontinho de mim. E transbordo aqui o que me veio: é algo que não cabe. Somos seres complexos, constantemente enfiados numa procura sem fim por nos entender, quem somos, de onde viemos, e quanto falta para chegar a algum lugar. Mas elas, nesse imenso e curto espaço de tempo em que nos olham pela primeira vez, ah amigo, elas não procuram nada. Elas apenas compreendem algo que pra mim ou pra você, que nunca fomos mães, está além de qualquer possibilidade de entendimento. Elas não perdem noites tentando entender de onde vem: elas sabem que vem de dentro. E elas não tem pressa. Elas esperam como ninguém espera nada nesse mundo impaciente. Elas sentem toda a dor e toda a alegria num lugar que não é possível se encontrar fisicamente. Mas podemos ver. Em cada mínimo detalhe do seu respirar, do afagar de nossas testas, no acalentar de nosso choro. O que penso é que no momento em que elas nos trazem ao mundo, com tanto calor e coragem, cria-se um canal, quase palpável que nos liga à elas e a partir dali, nada nem ninguém é capaz de desfazê-lo. Já ouvi centenas de pessoas dizerem que ouvir o primeiro choro de um bebê é algo mágico, é como o anúncio de sua chegada ao mundo. Preciso dizer que o choro, o grito e a contração de cada músculo de uma mulher dando a luz é o que há de mais mágico e único para mim, é um brado de amor e honra àquele ser, é na verdade o primeiro sopro de vida, uma vida que acaba de se iniciar, que antes daquele momento nunca havia habitado aquele peito, de mulher, de filha, de amante, e agora de mãe. Talvez eu considere essa uma das coisas mais belas do universo. E talvez pelo mesmo motivo um dos meus maiores sonhos seja me tornar esse canal de amor incondicional. A minha mãe sempre quis ser mãe. Diz minha avó que já bem pequena, a certeza mais certa que ela tinha é que minha mãe ia ser mãe. E foi. Diz ela que bem antes de eu existir ela sabia que eu era eu e ponto. Coisa de mãe, sabe? Não sei, mas quero saber. Já ouvi a história da primeira vez que abri meus olhos pra ela, “aqueles olhinhos minúsculos” mais de cem vezes. Mas ontem eu me permiti viajar para aquele olhar. E no momento em que ela repetiu “aqueles olhinhos…” eu pude sentir tudo o que nunca poderia caber numa frase mas que cabia perfeitamente se falada por aquela voz. Ser mãe deve ser uma dor danada. Deve doer soltar a mão no primeiro dia de aula do jardim de infância, dizer não para o erro mais óbvio e estúpido que poderíamos cometer na adolescência caso ela não se importasse, e lidar com semanas e semanas de silêncio e portas trancadas. Imagina o que devem sentir quando nos mudamos de casa, de cidade, de país. Eu não faço a menor ideia, mas um dia eu quero sentir. Porque apesar de toda a dor (que provavelmente é a maior do mundo), um único pedacinho do amor que lhes cabe basta para compensá-la. O jeito que abraçam. Que perdoam. Que sentem quando há algo errado. Que entendem sem precisar argumentar. Que sustentam, independente do quanto sabem ou quanto têm para oferecer. Elas oferecem tudo, inclusive sua vida. Um dia eu quero oferecer a minha. Porque eu não sei o que é ser mãe. Mas eu sei o que é ser filha. E sei o que é sentir uma gratidão que não cabe. Ela mora num ponto que também não pode ser encontrado em nós. E muitas vezes não é visível, pois não temos essa coisa que elas têm. Mas é o que há de mais precioso em mim. É algo que vem de dentro de alguém, do qual não poderei nunca me desligar. E é por isso que é tão complexo e tão difícil. Pra nós. Elas sabem que é simples, que basta um beijinho que resolve. Gratidão, mãe, por ser a fonte de amor de tudo o que sou até agora e por me ensinar a ser quem um dia vai entender o que é ver “aqueles olhinhos minúsculos” olhando pra mim também.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.