Carta de a(mor)niversário
Essa eu vou contar pra você e pra mais ninguém. Não vim falar do dia 24. Nem do sol e lua em câncer no mesmo céu. Vim falar de você para você. Do que é a sorte do mundo em tê-la não só nesse despedir de junho, mas em todos os dias e minutos que você respira. E falar de você para o mundo é falar de você para mim. Partindo do que sinto, sinto muito se por um deslize isso acabe por se tornar uma carta de amor. Sei que elas são ridículas. Senão “não seriam cartas de amor”. Mas o que posso fazer?Nada melhor que despir a capa da minha seriedade para ninguém menos que você. Prossigo. Não sei em que parte dos meus atalhos a vida decidiu te colocar ao meu lado. Só sei que, desde então, resolvi pegar o caminho mais longo e aproveitar a viagem. Você trouxe calma, mesmo sendo um rebuliço. Tira a gente da inércia de um jeito que não empurra, mas acolhe. E nessa caminhada eu vi você crescer. Me vi crescer em você. Vi esse coração incansável tomar pra ele mais verdade. Vi você aprender a cuidar aí de dentro antes de sair para cuidar de fora. Vi a menina que mora tanto nessa mulher, se permitir rir mais de si e falar besteira na mesa do almoço. Vi que não adianta a gente firmar qualquer certeza absoluta porque vem o tempo e derruba tudo como um castelo de areia. E que uma hora ou outra a gente acaba rindo disso. Te vi de um ponto, depois de outro, e entendi que você é movimento. Você não vai parar nem quando criar raiz. O vento vai continuar no seu cabelo. Cabe a quem sentir, acompanhar sua dança. Eu senti. Não no momento em que você levantou daquela cadeira e se apresentou há mais de dois anos. Naquela época eu nem sonhava com o tamanho que esse sorriso teria ao te ver chegar. Nem com os inúmeros desabafos sobre outro amor e suas dores. Nem com seu nome ficando cada vez mais próximo do topo da minha lista de conversas frequentes. Nem com o quanto da sua vida você passaria a me contar. Nem com o frio na barriga derretendo com seu toque ao dizer um “sim” mais que inesperado. Nem com a saudade que eu teria daquele quarto, da sua mão me puxando discretamente para trás da porta para ninguém ver, do jeito de você se despir das dúvidas e das roupas, do ritmo acelerado da sua respiração de manhã ou do gosto de tabaco na sua boca no fim da tarde. Naquela época não sonharia com as vinte e três músicas que cabem perfeitamente no desenho das suas pernas quando você caminha. Nem com o que seus olhos causariam em mim quando os vira para cima enquanto fala sobre sua família. Nem com os poucos e bons encontros que tivemos no Rio. Nem com suas mãos nas minhas na rua das Laranjeiras. Nem com as caixas da sua mudança que ajudei a fechar. Nem com as despedidas de novembro. Nem com o tom da tarde em que você me desejou feliz aniversário. Nem com a saudade que não coube em mala alguma quando viajamos para longe uma da outra. Nem com a notícia quase que fictícia da sua volta, com o nosso reencontro e começar a trabalhar com você, tudo ao mesmo tempo. Não deu pra respirar nem um segundo. E talvez por isso eu tenha me enrolado com as palavras hora ou outra. Tenha confundido nossos passos com os de quem vinha logo atrás. Tenha me perdido no canto da sua boca enquanto você falava de algo crucial para entender o caminho. Mas nas últimas 48 horas eu parei. A lua entrou no seu signo, como se não bastasse o sol. Me veio Carla Bruni quando a noite deitou sobre a janela. Fui lá fora e fumei um cigarro. Na volta vi você estampada na calçada. E senti. Que aconteça o que acontecer eu vou acompanhar a sua dança, estando no lugar que me couber na coreografia. Porque você vai dançar, independente do que for. E ser teu par no compasso que o mundo pede é tudo o que ele pede. Outro dia disse a um amigo “não nos percamos pelo amor do outro. Ninguém ama da mesma forma. O que importa é como nos encontramos no fim”. E te encontrar foi encontrar a mim mesma. Por isso o calorzinho, a cumplicidade, o tamanho dos áudios, as piadas, a sabedoria de mulher, a troca, o choro, o riso e os olhos… os olhos que, chova o que chover, estarão, espero eu, aqui desse lado do espelho, vendo sem cortes cada passo do teu caminhar, das suas escolhas, das suas receitas, dos editais, da sua maturidade e da sua imaturidade também. Dos seus erros e acertos, das celebrações, das novidades a cada curva que você alcançar, dos frutos de todas as suas escaladas, do dissolver de cada dúvida e do respirar de cada certeza. Da sua vida que já é plena, inteira em cada espaço que sobra ou que falta, eu quero fazer parte. Você é todas as coisas nas quais acredita e duvida ao mesmo tempo. Por isso, calma. Se olhar bem, no próximo minuto você já é o novo. Nunca deixe de se reinventar. Mantenha as janelas abertas para que os ventos soprem qualquer poeira que ainda teime em andar nos seus pés. E ria sempre, meu amor. Quando ri, você transborda. Seja essa abundância de mulher e humanidade onde quer que você vá. E eu caminharei aqui ao lado, dando e recebendo enquanto nos for para ser. Te lembrando a cada sementinha plantada que pode ser leve. Te amo dos pés à cabeça. E outras coisas mais. Feliz 30 anos. Gratidão por existir.
