Cinzas de segunda
De uma hora para a outra perdi-me dos passos que vinham atrás do que sou. Encontrei-me quase que instantaneamente no corpo ao lado, que diria em outros tempos, ser mais do tamanho do meu. Para que um fosse, ela precisou chegar. Mesmo que nada impedisse ser a troca de um incômodo por outro, aceitei os termos e abracei os riscos. Eram outros olhos, no fim das contas. Grandes e penetrantes. Disseram-me mais do que a boca, até que cheguei aos lábios. Se foram noites longas, passaram-me invisíveis. Depois da primeira vez que ela foi, só sustentei possibilidades imaginárias de mudanças de plano ou de apartamento. Voltou mais algumas, com o pretexto de meras saudades ou do frio que fazia lá fora. Acolhi o que pude, mas esqueci as pontas das minhas convicções entre o sorriso junto às covinhas e o som da sua risada embriagada. Já não lembrava o que eram aqueles ombros descobertos na cozinha cheirando a café nas manhãs de junho. As conversas de liquidificador viraram silêncios telepáticos madrugada a dentro. E é claro que uma hora chegaram as frases completas, sem forma alguma de meias interpretações. Era o que era, e ponto. Daqui, vejo sumir aquela esquina. Nem faz tanto tempo, mas recolhi-me ao calor de mim. Entendo que os dias estejam curtos em algum espaço do esquecimento, mas por aqui neva. E aí vim trocando o sol pela lua numa forma de não vê-la. E de todas as tentativas frustradas, sentei-me com os pés suspensos. Deixei que doesse. Que doessem as noites, a falta, os bilhetes na geladeira e as chaves atrás da porta. Vim parar no cheiro dos lençóis e na substância doce da sua fala. Quantas estações serão necessárias para abafar a música desse complexo vasculhar de mim? Trinta cigarros depois da primeira decepção a gente acaba se acostumando ao sabor. Então deixo que leve anos ou a infinidade do curto espaço de um segundo. Porque faça o frio que fizer, por entre as brechas da janela onde está estampado teu sorriso, em algum momento vou me apaixonar por outra primavera. E mesmo que caia em abril, eu mudo o disco de lado, a mesa de lugar, a roupa das gavetas e nada se parecerá com suas linhas. Nem mesmo as trinta e sete cartas que ficaram guardadas na tentativa de não entregá-la, assim de mão beijada, o meu amor, serão perdoadas. Salvo a última garrafa de vinho do armário e os gramas de alecrim em cima da pia. Esses, junto ao cheiro de tabaco e incertezas vespertinas, formam o que não vou me desfazer sobre ela. São as únicas coisas que sobraram ou pertencem só a mim. Chame de egoísmo quem assim inspirar. A vernácula fórmula não pode ser expressa. Só a quem viveu e sentiu a tal proporção em que pude acessá-la saberá. Somos inteiros substrato do que ontem deixamos morrer. Lá fora, ela chove. Aqui dentro, vive.
