A enfadonha dicotomia esquerda x direita e um cara chamado Nolan

Poucas coisas me deixam mais entediado do que a velha rixa esquerda x direita, na qual cada um tenta jogar para o outro a culpa por todas as mazelas do mundo. Tudo o que há de ruim por aí é devido à existência de pessoas no “extremo oposto” da sua visão política.

Apesar de só ter criado um certo gosto pela política quando já tinha barba na cara há bastante tempo, nunca me identifiquei muito com o conservadorismo destro ou o progressismo canhoto que existiam no Brasil. Minhas visões de mundo nunca se encaixaram perfeitamente nesse espectro político unidimensional.

Não esse Nolan, seu burro!

A coisa começou a mudar um pouco de figura quando tive o primeiro contato com o liberalismo — por conta própria, visto que isso é impensável na escola ou na mídia tradicional — lá pelos idos de 2010–2011. Foi aí que eu conheci uma “invenção” de um sujeito chamado Nolan.

David Nolan, cientista político, nascido em 1943, um dos fundadores do Partido Libertário nos EUA. Da mesma forma que eu, Nolan estava um tanto frustrado com a velha dicotomia esquerda x direita e resolveu propor uma nova forma de ilustrar a posição política de uma pessoa.

Lindão :3

Em vez da tradicional análise mono-axial numa escala de conservadorismo-progressismo, ele propunha que se analisassem as visões políticas considerando o quão tolerante as pessoas são em relação ao estado interferindo na liberdade dos indivíduos.

Nolan divide o conceito de liberdade em duas partes: liberdade individual e liberdade e econômica. Isso dá origem a quatro “grupos” distintos:

  • Conservadores (“direita”): são aqueles que tendem a favorecer a liberdade econômica (ex.: livre mercado), ao mesmo tempo em que preferem limitar a liberdade individual (ex.: leis anti-drogras);
  • Progressistas (“esquerda”): são aqueles que tendem a favorecer a liberdade individual (ex.: “meu corpo, minhas regras”), ao mesmo tempo em que exigem que o governo controle a vida econômica dos indivíduos (ex.: “taxação das grandes fortunas”);
  • Estatistas: são aqueles que tendem a favorecer um estado forte que deve controlar tanto a liberdade individual quanto a liberdade econômica dos indivíduos;
  • Libertários: são aqueles que defendem a ideia de que nenhum governo tem direito a legislar sobre as liberdades individual e econômica das pessoas.

Para ilustrar esses conceitos, a versão original do Diagrama de Nolan era composta por um plano cartesiano, no qual o eixo X representava a liberdade econômica e o eixo Y, a liberdade individual.

O Diagrama de Nolan original

Um belo dia, um cara chamado Marshall Fritz resolveu dar uma modificada no diagrama (já pensou se Nolan ligasse para direitos autorais?), colocando as tradicionais esquerda e direita em suas respectivas posições, simplesmente rotacionando o gráfico 45º no sentido anti-horário, assumindo então sua forma mais conhecida (que foi inclusive endossada por Nolan):

De brinde, Fritz nos deu a figura do centrista, vulgo isentão

O Diagrama de Nolan nem de longe consigue levar em conta todas as variáveis que formam a visão política de um indivíduo e possui alguns pontos criticáveis, como a tendência de jogar todo mundo para o centrão politicamente correto, ou a criação de infinitos subgrupos que se quer fazem sentido a partir dele, como esta aberração aqui (notem o eixo vertical invertido):

WTF is a Radical Centrist? É tipo um isentão rebelde?

Entretanto ele sem dúvida é mais útil para ilustrar os espectros políticos do que a velho binarismo esquerda x direita. E nunca é demais lembrar que:

Num próximo artigo, eu pretendo explorar algumas ideias que tenho a respeito desse diagrama na prática.

That’s all, folks!

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