Extrema-esquerda e extrema-direita não existem!

Nota: se você não sabe o que é um Diagrama de Nolan, sugiro que leia meu artigo anterior.

Cá estamos no maravilhoso mundinho das ciências políticas com a nosso Diagrama de Nolan em sua forma canônica:

Nesse mundo ideal, progressistas e conservadores acham fácil arrumar um bode expiatório para as mazelas do mundo: é só pegar um coleguinha no lado oposto, meter-lhe a pecha de “extremista” e pronto, tem-se a encarnação do Satanás sob a forma de “extrema-esquerda” (ou “extrema-direita”):

Entretanto, vamos tentar analisar o que significam esses pontos extremos no contexto que foi proposto por Nolan.

A extrema-esquerda seria composta por pessoas que defendem uma irrestrita liberdade individual, mas acreditam que o governo deve ter total controle dos aspectos econômicos, sendo o dono dos meios de produção e decidindo a melhor forma de produzir e distribuir bens e serviços (vulgo, socialismo).

A extrema-direita raivosa seriam aqueles que defendem o livre mercado irrestrito, mas creem que é dever do governo controlar todos os aspectos individuais da vida das pessoas para que elas não corrompam o modelo ideal a ser perseguido pela nação (não tão vulgo, ufanismo).

Mas será que isso é possível na prática?

A indissociabilidade da liberdade

F. A. Hayek, em sua obra “The Constitution of Liberty” — em português, Os Fundamentos da Liberdade — define a liberdade como “independência da vontade arbitrária de outrem”. Logo no primeiro capítulo, ele tenta mostrar a equivalência entre os vários “tipos” de liberdade: individual, civil, econômica, interior, etc.

É fato que a liberdade ou é absoluta ou é inexistente. Entretanto, como construção teórica, ainda faz sentido uma análise em termos de diferentes graus de liberdade.

O grande questionamento aqui é o seguinte: seria possível viver em um ambiente no qual existe total liberdade individual e zero liberdade econômica? O contrário seria possível também?

Brincando de faz-de-conta

Imaginemos uma sociedade ideal esquerdista, na qual as pessoas são livres para serem e fazerem o que quiserem, mas não existe quase nenhuma liberdade econômica, onde cada pessoa deve obedecer ao ordenamento produtivo e de consumo predefinido pelo estado.

Uma pessoa que deseja alugar seu corpo para fins sexuais em troca de dinheiro (ou comida e outros suprimentos) não poderia fazê-lo, pois estaria violando a ordem econômica vigente (socialismo), obtendo para si recursos que não aqueles fornecidos pelo estado de acordo com as suas necessidades.

Ou seja, “você pode usar seu corpo como quiser, menos para ganhar dinheiro com ele”. É fácil perceber que nem mesmo a liberdade individual aqui é absoluta na prática. As restrições no aspecto econômico da vida do indivíduo acabam se estendendo para a esfera das liberdades individuais.

Por outro lado, consideremos uma sociedade ideal da direita conservadora, na qual existe o livre mercado desregulado, mas praticamente nenhuma liberdade individual, onde as pessoas são obrigadas a viver de acordo com um rígido padrão moral definido pela elite burocrática.

Um indivíduo que percebe uma enorme demanda por prostíbulos gays e deseja criar um empreendimento para supri-la jamais poderá fazê-lo, devido aos controles morais exercidos pelo estado.

Em outras palavras, “você pode gastar seu dinheiro como quiser, menos para realizar qualquer atividade que vá contra os padrões morais predefinidos”. Também é trivial notar que a tal liberdade econômica vai só até a página 2. As restrições no aspecto individual da vida de uma pessoa acabam limitando as opções no aspecto econômico.

Dead Zone

Conforme argumentado por Hayek e diversos outros autores, é difícil dissociar a liberdade em componentes independentes. Na prática, cada componente irá ter uma grande influência nos demais.

No caso específico do Diagrama de Nolan, é impossível colocarmos indivíduos nos extremos horizontais do gráfico, de forma que essas regiões configuram uma “zona morta”:

Seguindo a metodologia de Nolan, é impossível existir alguém que pontue 0/100 ou 100/0 na prática.

Isso serve para mostrar que, ao tolher a liberdade, progressistas e conservadores acabam tornando-se cada vez mais parecidos.

Por essa razão, nunca é demais lembrar que:

Essa nunca vai ficar velha!

That’s all, folks =]