Lucas, capítulo II

Para entender o que se passa nesse texto, é imprescindível, indispensável e essencial que você leia o primeiro capítulo. É só clicar aqui. Todo comentário será bem vindo. Obrigado.

- Olá, meu nome é Silvano.

O homem parado na sala da pequena construção ao lado da sinagoga dos judeus se parecia com Hiliel. Era alto, forte e tinha uma barba cerrada. Seu sorriso era amigável.

- O meu nome é Lucano. Vim ver Paulo. Hiliel me mandou.

- Graças a Deus por você estar aqui. Venha, ele está no quarto.

O quarto era escassamente mobiliado. As cortinas eram pequenas e sujas e o único móvel era um divã baixo. Ao lado dele, ajoelhado, os lábios se movendo sem som, estava um jovem. Devia ter no máximo uns 16 anos, calculou Lucano. Ele pareceu não perceber a entrada dele e de Silvano.

- Timóteo, esse é o médico que Hiliel mandou. O nome dele é Lucano.

Timóteo se levantou de um salto. O seu semblante era pálido. Ele parecia preocupado. Os olhos vermelhos denunciavam que ele não dormia a muito.

- Você pode ajudá-lo ? Ele não está nada bem — lágrimas brilhavam nos seus olhos

- Deixe o médico examiná-lo primeiro, Timóteo, disse Silvano, com severidade.

- Farei o que for possível por ele, Timóteo — disse Lucano, firme.

Se aproximou do divã. Paulo era baixo, calvo e atarracado. Em nada lembrava Hiliel ou mesmo Silvano. Sua testa estava banhada de um suor fétido. Seus membros tremiam com os calafrios. De olhos semicerrados, parecia estar sentindo muita dor. Tentou falar, mas Lucano fez um gesto com a mão.

- Não se esforce para falar, Paulo. Guarde suas forças — disse Lucas, bondosamente.

- Ele já teve esse tipo de febre antes ? — perguntou Lucano a Silvano.

- Sim, ele já teve outro desses ataques de febre, mas não foi tão severo.

- Foi depois que ele foi apedrejado — falou Timóteo, impulsivo.

- Esse homem foi apedrejado ? — perguntou Lucano, espantado.

- Sim, a alguns anos, em Derbe — respondeu Silvano. Mas o Nosso Senhor Jesus o salvou — acrescentou, suavemente.

Lucano ia retrucar, mas nesse momento Paulo começou a tossir violentamente. Lucano o virou de lado até que o acesso de tosse passasse. Para ele, Paulo sofria de uma forma grave de febre terçã, que alguns dos seus professores em Cós chamavam de febre romana. Normalmente o acesso de febre passaria em alguns dias, mas Lucano temia que nesse caso ela não cederia assim tão fácil. Hipocrates já havia falado sobre esses casos graves de febre muitos séculos antes. O prognóstico não era nada bom, pensou Lucano. Precisava agir rápido.

- Procurem uma botica e consigam folhas de artemísia moídas. Vou fazer uma poção com vinho e papoula. Ele vai dormir um pouco, para que não sofra. Se não melhorar até amanhã, vamos ter que sangrá-lo — o tom de Lucano era firme e confiante, apesar das dúvidas sobre o futuro do seu paciente.

Timóteo estremeceu, mas saiu imediatamente em busca da artemísia, apesar da chuva estar até pior do que quando Lucano havia chegado.

- Obrigado, Lucano. Quer almoçar comigo enquanto esperamos ? — perguntou Silvano

Lucano teria preferido almoçar em algumas das hospedarias do centro, mas a tempestade estava muito forte e Timóteo deveria demorar com a artemísia. Além disso, ele estava com fome. Aquiesceu com a cabeça.

Não havia servos na casa, então Silvano rapidamente ajeitou tudo. Em pouco tempo uma mesa baixa estava posta na sala, com carne fria, pão, tâmaras e o vinho doce que os judeus preferiam. Lucano sorriu. O almoço estava saindo melhor do que o esperado.

- A quanto tempo vocês estão viajando ? — perguntou Lucano, se recostando nas almofadas, enquanto pegava uma tâmara.

- Eu e Timóteo a alguns meses. Paulo viaja a muitos anos, disse Silvano, enquanto se servia de vinho. Partindo de Antioquia-no-Orontes ele esteve em Chipre, Jerusalém, Antioquia da Pisídia e muitas outras cidades na Síria, Cilícia e Galácia, terminou ele.

- Não sabia que os judeus também tinham pregadores itinerantes — começou Lucas

- Não somos exatamente judeus tradicionalistas. Alguns inclusive nos perseguem. Nós nos chamamos de “cristãos” porque seguimos o Cristo, e Ele nos mandou pregar a Sua palavra a todos os homens, judeus ou não.

Lucano conhecia um pouco da religião judia. Hiliel o tinha convidado para um Sabath e o havia presenteado com os escritos de alguns profetas judeus. Lucano gostava principalmente de alguns salmos atribuídos a um rei chamado David. Mas era a primeira vez que ouvia falar em cristãos.

- Esse Jesus de quem você fala, é um profeta que mora em Jerusalém ?

- Não, ele está no céu, com o Altíssimo. Silvano fez uma pausa. Ele foi crucificado.

O espanto de Lucano foi visível. Silvano achou graça. Pelo visto estava acostumado a esse tipo de reação das pessoas.

- Cremos que Cristo é o filho de Deus, conforme prometido por nossos profetas. Ele foi morto pelos romanos, mas Deus o ressuscitou no terceiro dia. Ele apareceu a seus discípulos mais chegados e os mandou pregar a Sua palavra pelo mundo, depois ascendeu aos céus.

- Paulo era um desses discípulos ?

- Não, Paulo fazia parte de uma milícia que perseguia nossos irmãos. Um dia, indo a Damasco, Cristo apareceu para ele na estrada. Paulo ficou cego por alguns dias e depois se converteu. Desde então vem pregando para judeus e gentios.

Lucano ficou quieto. Não sabia no que pensar. Não sendo religioso, achava toda aquela história uma loucura. Silvano parecia bem instruído e falava corretamente o grego. Timóteo era jovem, e estava claro que tinha uma adoração incondicional por Paulo. O que os fazia seguir um pregador itinerante por metade da Ásia ? Não fazia o menor sentido.

- Sei que parece loucura — Silvano parecia estar lendo seus pensamentos. Mas Cristo está para voltar e devemos levar Sua palavra até os confins da terra.

Nesse momento Timóteo chegou, encharcado da chuva mas com a artemísia em pó. Lucano se levantou para fazer o seu preparado. Colocou uma dose generosa de papoula. 
 Acompanhado de Silvano, enquanto Timóteo se secava perto do fogo, fizeram com que Paulo bebesse uma taça cheia. Em breve ele ressonava pesadamente, com uma expressão mais serena no rosto.

- Ele vai dormir por um bom tempo — esclareceu Lucano. Volto aqui amanhã cedo para ver como ele está. Se ele sobreviver a essa noite, pensou Lucano, mas não disse.

- Obrigado, Lucano. Nos vemos amanhã, se Deus quiser.

Alguma coisa dentro de Lucas lhe deu a certeza de que esse encontro aconteceria.

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