Gatos mortos, castelo em chamas

Há um sentimento de horror em ver gatos mortos atropelados em vias de trânsito que faz pensar. Sem dúvida, um acidente a fim de evitar um outro pior. Como se diz, dos males o menor. Me lembro de uma história que um amigo me contou sobre seu primo ter quase causado um acidante ao tentar desviar de galinhas na estrada. Cômico, dizia o amigo, principalmente ao se conhecer a personalidade do primo, que um dia fora um terrible enfant quando certa vez sentiu prazer ao pisotear vorazmente um grilo atrás do sofá na casa de sua avó, enquanto essa dizia com voz terna “Não mate o bichinho, não.” O fato é que em determinados quilômetros dessas estradas, vias duplicadas se tornam uma via de mão dupla, cortando pequenos municípios e aproximando as distâncias de risco entre habitação e estrada. Numa dessas passagens, o tal primo ia acelerado no carro quando várias galinhas tentavam sua travessia de um lado a outro da pista. Motivado por um sentimento controverso ao do caso do grilo, afundou o pé. A pisada no freio e a deslizada da borracha resultou num “O que foi isso?” vindo de seu pai. “Iria atropelar as galinhas? Não tinha para onde ir.” respondeu o primo. “Então você salva as galinhas e a gente morre?” indagou o pai. E a discussão seguiu, assim como a viagem.

Bom, tal dilema faria dos gatos mortos nas vias um fato menos horroroso, não fosse pelo aumento na quantidade de corpos felinos nos acostamentos. Como faço o trajeto todos os dias em direção à universidade, não só vejo seus corpos esmagados, mas posso acompanhar parte do processo de putrefação de cada um. “Semana passada ele estava inteiro, agora parte do corpo se foi.”. Parece até uma escultura de areia, que com uma pá vai sendo desfeita de porção em porção. Em verdade eu digo que o mais fácil é ignorar, uma vez se aprofundar na questão revela uma reflexão de caráter um tanto existencialista, considerada de mau uso para a sanidade mental cotidiana. No entanto, pela recorrência do acontecimento, ignorar é impossível. Aquele mesmo animal que por um lado é reverenciado por seus adoradores, vistos em campanhas de “não compre, adote”, fazendo acrobacias, brincando e provocando a curiosidade, é em outro cenário desprezado e deixado para apodrecer no acostamento.

Poderia essa ser uma discussão sobre um acontecimento trivial. Seria, caso a via tivesse sido triplicada nos setores de maior necessidade, desafogando o fluxo de veículos onde se mais precisa. Assim, nossos pensamentos passariam pelo assunto como os carros passariam pelos corpos, em alta velocidade. Porém, o que um mal pode trazer para o bem é a noção da verdadeira situação em que nos encontramos com relação aos nossos gestores públicos e políticos. Os corpos felinos se tornam sinalizadores, sintomas de uma conjuntura atual. A tal obra de triplicação da via que foi adiada, justificada por questões afogadas na burocracia, leva ao pensamento de que não se deve confiar em qualquer um que sejam esses políticos, ansiosos por fundos para garantir suas campanhas. Está claro que estão mais preocupados com a adrenalina gerada pelos jogos políticos e o prazer gerado por esse do que com as sutilezas da democracia. A prova disso parte dos cidadãos cariocas que hoje respiram as cinzas da destruição da Biblioteca de Alexandria brasileira.

Litografia que representa incêndio na Biblioteca de Alexandria (Foto: Wikimedia Commons)

Por isso, é possível considerar no momento atual o ato de votar uma questão tão horrorosa e existencialista quando a questão dos gatos. Qual desses senhores é diferente, baseado no argumento de que todos são da geração que sofreu a mesma educação para a política, tendo a mesma percepção de sua natureza e regozijo pelo jogo, teoricamente tão primitivo quando à situação Júlio César-Brutus. Como escolher, se já é empírico o fato de que sua disposição para a alteridade é voltada apenas para o discurso da candidatura e para a manutenção da visão pública de seus seguidores durante o governo para aprovar suas politicas? O fato é que cumprem o prometido como a comida que é feita de má vontade. Pois bem, ontem o panelão pegou fogo.

Helder Bruno Alves Mendonça de Souza

Written by

Bacharel em Comunicação em Mídias Digitais (UFPB). Mestrando no Programa de Pós-graduação em Computação, Comunicação e Artes (UFPB)

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