Aquele momento

“HOW RIGHTEOUS YOU ARE!!! HOLLOWAYS” — Inmyths ; Foto: João Belém

A espera é tramada. Fazemos a viagem à espera, com alguma ansiedade apesar de não ser novo para nós. O baterista não pára de bater a perna no banco de trás.

“Estás nervoso ou quê?” — pergunto
“Eu?! Não…Dormi depressa…”

Não me engana.

O guitarrista isola-se. Vai mudo o tempo todo.

Cada um manifesta ansiedade à sua maneira.

Temos de dar com o sítio, descarregar o material, fazer o soundcheck.
A acústica é sempre imprevisível. Ou é porque o ar está húmido ou porque está seco, ou a sala é uma caixa de graves, há sempre qualquer coisa.

Já me habituei à Lei de Murphy

Venha o jantar.

Os concertos em Portugal começam demasiado tarde na minha opinião.
Uma amiga diz que é porque as cidades são pequenas e as pessoas saem do trabalho para casa, tomam um banho, perfumam-se, vestem-se para sair à noite e com isto passam umas quatro horas.

“Começam à meia-noite, ok? Vamos esperar mais um pouco para ver se chega mais pessoal. Tenho uns amigos que disseram que vinham.” — diz o promotor

Fazemos tempo a dizer mal, ou como se diz em inglês “bitching”, dos tempos que correm e da vida de músico.

Mas estamos todos à espera daquele momento.

E eis que chega.

“Bora lá”

Começamos a tocar, damos o nosso melhor para convencer o pessoal que está no bar a virar-se na direcção do palco e bater o pé ao nosso som. Sim, há pessoal que paga bilhete para ir ver um concerto mas fica-se pelo bar em completo desprezo pelas bandas. Eu até acho que são tímidos e têm vergonha mas também não sei… homens feitos de barba rija com vergonha de bater o pé?!

Passa tudo a mil e acaba num ápice.

O baterista que está habituado a tocar três horas seguidas na sua banda de covers fica sempre surpreso.

“Já acabou?!”

Aquele momento demora a chegar e vai-se embora depressa. É uma mistura de emoções e sentimentos. É terapêutico. É estranho. É explosivo. É limitador. É libertador.


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Se quiseres ouvir o que faço: inmyths.com

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