O peso de um bigode
Um dos grandes sonhos que tenho é portar um polpudo bigode. Não um qualquer, mas um daqueles que merece ser penteado. Bigode daqueles que agrega respeito, que faz do guri um homem. É sério, não estou brincando: eu sonho em ter um bigode.
Os motivos são vários. Por favor, tu poderias me dizer um só homem que carregue um bigode consigo e, ao mesmo tempo, confessar, com sinceridade, que não o respeita? Mesmo o Sarney um dia foi Presidente da República com um bigode no rosto. Se hoje não é respeitado, deve ser, entre outros motivos, por falta de trato com o companheiro. O bigode por si só não pode resolver tudo, né? É uma entidade que age como a banca: paga e recebe.
Nos despedimos hoje de um dos grandes bigodes da história do Rio Grande do Sul. Francisco Chico Pablo Paulo Sant’Ana deixa um legado insubstituível de textos, áudios e vídeos. Um legado completo, como seu curador. Respeitado e amado por todos, faz com que a penúltima página de Zero Hora nunca deixe de ser um espaço emprestado por ele para os demais. Para compreender melhor o fenômeno, o cronista inverteu uma lógica cultural de ler o jornal da esquerda pra direita e deixou o povo gaúcho mais próximo do japonês.
Seu posicionamento sempre soou arrogante, mas de uma forma amável. Como conseguir isso? Como convencer todos de que o teu trabalho é de fato genial e de que tu não precisa carregar o insosso fardo da modéstia? Sim, a obra de Pablo fala por si, mas o segredo maior tá na cara: o bigode.
Sant’Ana é a cara do Rio Grande do Sul. Um pouco narcisista, brincalhão e torcedor convicto - e levando tudo isso muito a sério. Todos nós temos um pouco dele. Afinal, um homem que confessa amores e dores no maior jornal do estado por décadas acaba, necessariamente, por deixar algo de si em todos que o leem.
Não pode ser só uma coincidência que o maior jornalista da história deste estado tenha carregado, na maior parte de sua carreira, um belíssimo bigode. Temos todos os motivos pra odiar Paulo Sant’Ana: sério demais, egocêntrico, indireto, fala curvilínea… Por que não o fazemos? O bigode, sempre ele.
Peço desculpas pela minha confissão inicial. Por que devo ambicionar só um bigode, quando esse rapaz o cultivou e ainda tornou-se símbolo de uma imensa torcida, colunista da Zero Hora, amado por quase todos (ter inimigos é importante, como o próprio dizia) e, de quebra, eternizou-se entre todos os gaúchos?
Na verdade, meu sonho é ser Paulo Sant’Ana.

