Da janela do meu quarto me alimento
Não. Hoje não é sobre livros que vou contar.
Não. Hoje não é sobre livros que vou contar, ainda que esteja desfrutando a leitura de “Contos amazônicos”. Algo aconteceu durante à noite antes que iniciasse a leitura e tomou conta de mim e assumiu minha voz.
Cheguei em casa, um apartamento na parte superior de um sobrado com uma longa janela de vidro voltada para a rua. Cheguei e fui para o banho. Água morna, sabonete de erva-doce, um perfumado xampu para cabelos oleosos e na saída me enxuguei na toalha ainda com um leve aroma de amaciante. Troquei de roupa e fui para cozinha. Abri a geladeira e peguei o queijo branco e o suco de manga de caixinha. O queijo branco estava macio e, com o gelado suco de manga na caneca, era tudo que desejava para aquele momento. Senti-me saudável e um frescor invadiu meu peito.
Com a caneca de suco em uma mão e o pedaço de queijo na outra fui para a janela observar a paisagem como de costume, a larga janela de vidro que une o corredor e o quarto à rua. Vi um homem abrindo uma sacola na lixeira da casa em frente. Eu já estava ali quando ele se aproximou, mas não vi de onde ele veio e ainda não tinha observado sua bicicleta que estava apoiada atrás de um carro. O senhor tateava os sacos de lixo e tive a impressão de que era o vizinho da frente, que havia jogado algo fora por engano e estava procurando o objeto no lixo. Quando era papel ele deixava no mesmo lugar. Quando tinha metal ele retirava alguma coisa de dentro e colocava em outro saco. Ele então abriu uma sacola e parecia enfim ter encontrado o que tanto procurava. Fiquei curioso em um primeiro momento e depois aflito, pois ele retirava vários itens da sacola até que sua mão rapidamente subiu com algo e, no mesmo momento em que eu colocava mais um pedaço de queijo na boca, repetindo simultaneamente a mesma ação ele também abocanhou um pedaço de comida. Era branco, comprido como uma fatia de pão de forma e pequeno o bastante para caber na boca em uma só vez. Deveria estar naquela lixeira apodrecendo já há algum tempo, após um longo dia de sol escaldante. Na hora travei assustado. Fiquei pensando nos cheiros, texturas e gostos que aquele homem havia colocado na boca. Pensei em quantas vezes ele já deve ter feito isso. Minha barriga então começou a estufar e me veio a culpa pelo o que eu acabara de mastigar. Cruelmente, insensivelmente, cinicamente em meu confortável apartamento.
O misterioso homem continuou revirando sacos de lixo e eu fui ficando mais e mais aflito. O que faria se ele colocasse mais coisas na boca? Ofereceria o queijo e diria que ele é digno de um bom alimento? Ou pegaria as duas garrafas de longneck em cima da pia e perguntaria se ele teria interesse em vidro?
O homem retirou de uma sacola uma roupa escura e ficou analisando em diferentes ângulos pensando em todas as formas e todas as pessoas que poderiam utilizá-la. Ele estudou cada fatia do lixo sobre como poderia aproveitá-las. Então colocou as sacolas na lixeira, pegou sua bicicleta e foi até a lixeira da casa vizinha, mas esta não tinha nada de valor. Somente papéis sujos. Ele voltou para a bicicleta e antes de subir olhou rapidamente para mim sem levantar o pescoço. Por baixo do boné preto sua face escura não tinha expressão. Somente algumas rugas demonstravam sua idade avançada. Será que este senhor em minha frente sente a mesma vergonha que eu? Será que sua barriga se estufou ainda mais que a minha?
Ele subiu na bicicleta e virou a esquina. Segui estático na janela. Minha mão cheirava a queijo e em minha boca o sabor adocicado da manga. Em minha mente uma cena se repete ininterruptamente.
