Antropofagia

O espírito de modernidade, crescente com a industrialização do início dos novecentos no Brasil, efervescia nos núcleos sociais das grandes capitais. Estradas de ferro, companhias estrangeiras e novos edifícios surgiam e cresciam num ritmo antes não visto na recente república. As elites usufruíam de uma vida movida à automóveis e bondes, iluminada à energia elétrica e cheia de produtos e maquinas vindas da América do Norte e Europa.

Este mesmo espírito provoca uma notável inquietação que se alastra no interior dos grupos de artistas e intelectuais, insatisfeitos com o academicismo que imperava no cenário artístico. As diversas manifestações isoladas ao longo das duas primeiras décadas culminam, em seu auge, na Semana de Arte Moderna, na cidade de São Paulo, no simbólico ano de 1922, centenário da independência brasileira. Tal evento, representou uma verdadeira ruptura, pois marca o início do Modernismo no Brasil, apresentando uma revolução na linguagem, na expressão e na liberdade dos novos conceitos artísticos.


Antropófago, do grego ánthropos (homem) e phago (“eu como”, conjugação do verbo phageîn), é aquele que se alimenta de seres humanos, assim como faziam os índios Tupi, principal etnia do litoral brasileiro. Estes povos comiam a carne de seus inimigos, com a crença de que desse modo poderiam absorver-lhes a força. Seguindo este conceito, Oswald de Andrade propunha a “Devoração cultural das técnicas importadas para reelaborá-las com autonomia, convertendo-as em produto de exportação”.

Este movimento tratava-se, pois, da criação de uma arte própria, que se “nutre” da cultura industrial estrangeira e da cultura interna, de índios e negros, retirando destas seus aspectos positivos, tendo por fim a “deglutição” de uma identidade cultural brasileira.


Parakharáttein tò nomisma!

Ou “descaracterizar a moeda”, disse o oráculo a Diógenes, o Cínico.

Diógenes proclamava, e exercia, uma vida desprendida das leis da sociedade e de tudo que impedisse os seus instintos mais naturais de se expressarem. Propunha andar diretamente em direção à natureza, esquecida pelo homem civilizado, seguindo a própria animalidade e abandonando tudo aquilo que pudesse ser considerado supérfluo.


O sonho antropofágico circunda estreitamente os valores dessa utopia cínica. O retorno à Pindorama, à terra dos Tupis, onde homem, mulher, planta e bicho são livres e partes de um só, ao mesmo tempo que todo cosmos é descrito dentro de cada um. O Éden nacional, onde o símbolo do “bom selvagem” é suplantado como indivíduo imune de ambições e pecados, é inocente e por vezes fraco, mas conhecedor de todos os prazeres. Um Adão caboclo longe do caos das cidades.

Ao evocar a cultura nacional na sua forma mais primitiva, abominando o fetichismo do modo caricato “para inglês ver” como era visto o Brasil no exterior, a forte ideologia de Oswald, sem dúvidas, deixou marcas profundas no modernismo brasileiro.


Referências

“A semana”; in: <http://www.macvirtual.usp.br/mac/templates/projetos/seculoxx/modulo2/modernismo/semana/index.htm> Acessado em julho de 2015

“Semana de Arte Moderna”; in: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Semana_de_Arte_Moderna> Acessado em julho de 2015

“Movimento antropofágico”; in: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento_antropof%C3%A1gico> Acessado em julho de 2015

ANDRADE, Oswald de. “Manifesto Antropófago”. Revista de Antropofagia, Ano 1, No. 1, 1928.

“Antropófago”; in: <https://pt.wiktionary.org/wiki/antrop%C3%B3fago> Acessado em julho de 2015

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